Em passagem por Caxias, Nuccio Ordine condenou a utilização do conhecimento como mera caça ao diploma - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Educação11/09/2017 | 11h01Atualizada em 11/09/2017 | 11h01

Em passagem por Caxias, Nuccio Ordine condenou a utilização do conhecimento como mera caça ao diploma

Italiano considera um papel das universidades estimular nos estudantes a busca pelo conhecimento

Em passagem por Caxias, Nuccio Ordine condenou a utilização do conhecimento como mera caça ao diploma Félix Zucco/Agencia RBS
Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Após receber na última terça-feira o título de Doutor Honoris Causa em sessão solene do Consuni da UCS, o filósofo e crítico literário italiano Nuccio Ordine, professor da Universidade da Calábria, ministrou uma palestra no auditório da UCS, em Caxias do Sul, onde abordou a importância da cultura e dos patrimônios históricos na sociedade atual, e de que maneira os valores mais importantes, como o conhecimento, transformaram-se em lógicas utilitaristas onde tudo o que importa é perder ou ganhar. Nuccio avalia que, atualmente, é comum nos perguntarmos com frequência por que fazemos o que fazemos. Para que serve ler uma poesia, estudar latim ou ouvir um concerto? Para Ordine, a resposta é clara:

— Porque vivemos em um universo utilitarista.

O italiano, autor do livro A Utilidade do Inútil (2016), divide a lógica utilitarista em três aspectos: a instrução das escolas e universidades; a pesquisa científica; as relações humanas. 

Sobre a primeira, destaca a importância das instituições de ensino e a responsabilidade que lugares como a Universidade têm de formar alunos que busquem, além da certificação, o crescimento pessoal e profissional:

 — A maioria dos alunos, quando questionado por que vem para a faculdade, responde que vem atrás do diploma. A tarefa de um professor é dizer para esse aluno que não sei vai à universidade em busca do diploma, e sim para aprender, se tornar uma pessoa melhor e, principalmente, ser e pensar como um homem livre.

Abordando a pesquisa científica e sua cultura dentro do país, o professor aponta a divisão feita entre a pesquisa de base, que envolve descoberta e curiosidade, e a pesquisa aplicada, utilizada para produzir, através da pesquisa, um novo produto para o mercado:

— Hoje os governos dão dinheiro praticamente só para a pesquisa aplicada. Quando pergunto para os meus alunos quem inventou o rádio, eles respondem que foi Marconi. Mas o que eles não sabem é que ele não teria inventado nada se antes disso James Clerk Maxwell e Heinrich Hertz não tivessem descoberto as ondas eletromagnéticas. Se não fossem esses dois sujeitos que fizeram pesquisas aparentemente inúteis, provavelmente não teríamos conhecido o rádio.

Por último, Ordine reflete sobre as relações humanas e a importância das conexões que criamos uns com os outros:

— Me incomodo quando dizem que O Pequeno Príncipe é uma historia para crianças. É um livro escrito para nós, adultos. Recordem o diálogo entre a raposa e o pequeno príncipe: ele chega na terra sem amigos, encontra a raposa pela primeira vez e pede para que ela seja sua amiga. A raposa diz: "Não podemos ser amigos, pois mal nos conhecimentos, você deve me cativar antes". Criar laços significa investir tempo, tomar cuidado. Hoje perdemos a ideia de que as relações humanas devem ser cultivadas com o nosso tempo, investimento de tempo. Pensa-se apenas em perder ou ganhar tempo. E essa é a lógica utilitarista.





 

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