Ciro Fabres: Nossos dias eram assim - II - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

Opinião13/09/2017 | 14h43Atualizada em 13/09/2017 | 14h43

Ciro Fabres: Nossos dias eram assim - II

Mas como é que chegamos até aqui?

Era só o que estava faltando: o obscurantismo na área cultural, de forma evidente, sem nenhuma culpa ou remorso. Agora não falta mais. Algumas pessoas, a partir da experiência própria delas, daquilo que entendem sobre o mundo, ao não gostarem de uma exposição de arte, fizeram barulho nas redes sociais e conseguiram a suspensão dessa exposição, com a concordância de quem a organiza, no caso o Santander Cultural. Bastou uma pequena pressão, e pronto. O precedente é terrível. Imagine se a moda pega.

Foi o que aconteceu com a exposição Queermuseu, em Porto Alegre, a partir da ação obtusa do até há pouco tempo tão badalado e aplaudido MBL, o Movimento Brasil Livre. Isso é idade das trevas. Você pode não gostar de alguma obra artística, mas a compreensão da arte exige mente completamente aberta. É a percepção de um artista, como cada um de nós tem a sua. Voltamos a séculos passados, mas a verdade é que nunca saímos deles. Porém, trata-se da equivalência na área cultural de outras barbaridades e aberrações com as quais já nos acostumamos, e nem mais ligamos para elas, e nem mais achamos tão estranhas, e nem mais protestamos ou reagimos. Vejamos, na relação a seguir, quais são essas equivalências de nosso tempo.

Na violência, temos esquartejamentos e decapitações cada vez mais populares. Direitos humanos, entre nós, é palavrão, e isso explica quase tudo. Na área do preconceito, temos a violência homofóbica, de gênero, a discriminação contra imigrantes. "Voltem para casa", já se disse aqui em Caxias.

Na política, a corrupção segue enraizada, endêmica, indiferente ao combate incessante — que é pelo menos uma boa notícia. Estão aí os R$ 51 milhões de Geddel, a imagem símbolo. 

A educação é desprezada. Essa é a tradução fiel e correta quando se tem uma realidade em que um dos principais agentes da educação, o professor, é desvalorizado ao receber salários vergonhosos e parcelados. Temos de tapar o nariz e conviver com o acinte dos privilégios, especialmente na área do Poder Judiciário e do Ministério Público, onde os primos ricos do funcionalismo recebem salários acima do teto constitucional, auxílios moradia e de todo tipo sem nenhum problema de consciência, com média de R$ 40 mil por mês, como mostrou relatório divulgado pelo CNJ agora este mês.

A qualidade musical dos nossos dias, oferecida de forma massacrante aos ouvidos da população. Este é um aspecto que não deve ser desprezado, e também explica muita coisa. A intolerância, a agressividade e o baixo nível que tomam conta das redes sociais. 

Este é o cenário. Não surpreende, pois. Mas como é que chegamos até aqui? Fazendo concessões, uma depois da outra. 


 

Veja também

Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros