Ciro Fabres: Nossos dias eram assim - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

Opinião06/09/2017 | 10h13Atualizada em 06/09/2017 | 10h13

Ciro Fabres: Nossos dias eram assim

Estamos no capítulo das barbáries

Na nossa versão paroquial, um homem apareceu esquartejado, sem a cabeça, que até agora não se descobriu, em um contêiner da Rua Sinimbu. Nossos tempos têm sido férteis em barbáries, em espertezas, em corrupções. Os enredos surpreendem, pois fogem ao exercício mais ficcional de nossos autores, incapazes de imaginar o que a realidade nos tem oferecido, entre um noticiário e outro.

Estamos no capítulo das barbáries, e nos reportamos ao caso caxiense. Chocante. Ou deveria ser. Mas os últimos dias nos revelaram a materialização de outros episódios grotescos, grosseiros, cruéis: o homem que ejaculava em mulheres dentro de ônibus em São Paulo, e era reincidente; os executores de Porto Alegre que ordenaram às vítimas que cavassem suas próprias valas, depois entrassem nelas para receber dezenas de disparos. E um dos executores ainda comentou, depois de 10 tiros:

— Acho que o negão ainda não morreu.

Tudo isso filmado, como filmado foi o assassinato de um adolescente de 14 anos em Caxias meses atrás, para ser disseminado nas redes sociais.

Há uma polêmica improdutiva quando se relaciona tais fatos a nossos tempos: diz-se que sempre houve, só que antes se sabia menos. Portanto, eles não seriam característica exclusiva de nossos dias. Ora, o fato é que aconteceram. Agora. E bem perto de nós.

Um certo Terêncio, dramaturgo romano, cravara um diagnóstico sobre a sociedade de sua época, no distante Século 2, ainda bastante atual. Mas que é levado em conta por cada vez menos pessoas, é o que sugere a sucessão de barbáries: "Nada do que é humano me é estranho", disse Terêncio. Ou não deveria ser. Homens que ejaculam dentro de ônibus, outros que esquartejam e lançam as partes em plena Sinimbu, ou os que ordenam às vítimas cavar a própria sepultura são seres humanos, queiramos ou não, ainda que alguns tentem dizer que não são. São sim, e chegaram a tanto. 

A tradução do diagnóstico de Terêncio é que tais ocorrências deveriam nos importar: por que elas ocorrem, e como prosperam em nossos luminosos dias de tanta tecnologia e cada vez menos humanidades. Eis aí a pista fundamental. São seres humanos os protagonistas, e existe relação de causa e efeito. Não são monstros, como muitos tentam simplificar para deixar claro que não é com eles. Ainda que pareçam.

As barbaridades despencam a nossa frente. Causas há, e deveriam nos interessar. A menos que nunca tenhamos sido demasiadamente humanos, sob o ponto de vista da capacidade e do interesse pela reflexão. O pensamento e o sentimento parece que se perderam pelo caminho. E dá em tudo isso que estamos vendo. Temos sido engolidos pelas barbáries.

 

Veja também

Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros