André Costantin: Pixú - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião07/09/2017 | 08h53Atualizada em 07/09/2017 | 08h53

André Costantin: Pixú

Pixú, no idioma de Aurora, povoava toda a casa

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

A tragédia da venda daquele animal anunciava-se nas prateleiras da loja de rações para cachorros, à espera de um idiota comovido: eu. Vi o minúsculo peixe em um quadrado de acrílico, quando já dava meia volta, ao bip da máquina do cartão de crédito, avisando que a transação estava ok. Dizemos ok para tudo.

Um dia, a pequena Aurora, fascinada nos azuis do peixe, exclamou: "pixú". Assim, o exemplar de Betta Splendens passou a ser, para sempre, Pixú – com a licença do acento agudo no final do nome. Era de um azul infinito, em gamas complexas que o meu daltonismo não podia decifrar. Peixe real de tons imaginários.

Pixú, no idioma de Aurora, povoava toda a casa. No caos do meu acervo geológico, escolhi quatro pedras sentimentais para o vidro do Pixú. Cada pedra, uma história. Diferente das gatas e dos cães, excessivos, com Pixú eu podia ter meus diálogos de solidões e silêncios. Um mar de insondáveis conexões, era o aquário do Pixú. Sonhei com ele: era grande, mal cabia na minha mão. Imagina!, um beta, tão pequeno... — antissocial, siamês boxeador, que se sabe.

Nesta semana, durante uma manhã, o azul do Pixú esteve diferente. Montei vigília, aflito; entre mergulhos e impulsos à superfície, Pixú morreu. Isso se deu no momento em que chegava a notícia da morte da bisavó de Aurora, que vivia uma tradicional vida camponesa no interior de Flores da Cunha. Gatos em volta de casa, a "bisa dos mimis".

Choro a morte de um peixe. Esses pequenos seres da terra e das águas tudo sabem; quando nós humanos formos dispensados da crosta do mundo, eles farão seus novos arranjos evolutivos, livres de tanto plástico.

Pixú, na palma da minha mão, trouxe-me o pedreiro Alécio, meu pai. Ele tinha um papagaio, adorava. Quando morreu, ficou a ave. Três dias depois, no porão de casa, encontrei o papagaio, morto. Voou, indo afogar-se num balde com meia água. Certos animais somos nós em almas entreveradas. Morreu Pixú. Morre não uma anciã da colônia, mas um tipo de mulher; e com ela um idioma de imigração, uma sabedoria existencial. Nascem as palavras de uma criança. 

A realidade, por não precisar de nós, não se altera substancialmente com tais e sutis efemérides. O mundo, sei, queima por trás dos muros: a bomba H, o Japão da paz cogita sua arma atômica; ressurgem os ditadores da América, a selva em chamas, plataformas continentais se descolam da Antártica, o assalto na esquina. Entretanto de tanto assombro humano, não posso escrever uma linha ou verter lágrima que não seja do Pixú.

 

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