André Costantin: Itaimbezinho (começo) - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

Opinião21/09/2017 | 13h42Atualizada em 21/09/2017 | 13h42

André Costantin: Itaimbezinho (começo)

Os anos 80 sopravam para os lados da Vila Kayser

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Muito tempo antes de o nome Itaimbezinho virar uma placa de roteiro turístico na porta de uma loja em Gramado, antes da palavra canyon ser escrita cânion nos jornais, eu sonhava com esse lugar — garganta de mistérios que depois quase me devoraria, quando da travessia, a pedra rolando sobre minha perna no leito do rio... Pois assim é o querer demais, humano, desejado.

Os anos 80 sopravam para os lados da Vila Kayser, trazendo notícias do mundo nos discos e revistas, na rádio Ipanema de Porto Alegre, nas idas a pé ao centro da cidade. Sem google maps na palma da mão digital, eu imaginava que o Itaimbezinho fosse um desfiladeiro distante, não sei por que seria lá na fronteira com a Argentina — a minha imaginação primordial do canyon coincidiria com as coordenadas do Cerro do Jarau, em Quaraí, lá onde habitam Teiniaguá e os seres fantásticos da nossa lenda fundadora: a Salamanca do Jarau.

Plena adolescência, batia um desejo de abismo além dos campinhos de futebol do Kayser e das incursões pela pedreira Guerra. Descobri que o Itaimbezinho ficava nos Campos de Cima da Serra. Bastavam dois ou três tiros de ônibus. Vieram os primeiros acampamentos. Chegávamos em quatro ou cinco gatos pingados à texana e pouco hospitaleira Cambará do Sul. Por anos, a janela do ônibus emoldurava o rosto de duas moças congeladas na varanda da casa de madeira que servia de rodoviária.

O parque do Itaimbezinho era quase ruína, vigiado por alguns guardas do IBDF, hoje Ibama. O infinito do canyon chamava mais fundo. Planejamos uma travessia, em segredo. Fomos, então, num carnaval em três amigos, sem cordas pra segurar, sem noção, mas de orelhas em pé. Iniciamos a descida da fenda em uma madrugada. Ao amanhecer, um guarda do parque notou nossa estratégia e foi atrás. Chegamos no fundo, onde o rio despenca de 600 metros e emborca na bocarra do canyon, formando um brete dantesco. Só peraus e correnteza. Acabava ali a nossa ingênua aventura: já ouvíamos os gritos do guarda descendo a garganta do Itaimbezinho. Oito quilômetros de sonhado canyon à frente ficavam para trás.

Mas o querer! Eis que surge do nada na névoa um menino, negro, magro, pés descalços sobre as rochas; na mão segurava um par de chinelos havaianas, único indício do mundo real, naquele inferno de água e pedra. Ele se aproximou e perguntou se queríamos passar. E nos deu a senha: "aquela pedra; vocês entram no rio, vão contornando aquela pedra, água no peito, sempre junto da pedra, não desgrudem da pedra; vão indo, até sair do outro lado".

 

Veja também

Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros