André Costantin: Efi, efi, enfim uma gênia! - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião14/09/2017 | 14h09Atualizada em 14/09/2017 | 14h09

André Costantin: Efi, efi, enfim uma gênia!

Adeus à roça; de repente era viúva, cheia de filhos, no anonimato da capital paranaense

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Em nada a fachada daquela casa, em um bairro de Curitiba, anunciava que dentro dela existiria um mundo de redemoinhos e seres fantásticos. Um desses seres, que eu penso ser um cavaleiro medieval pop-glauberiano feito de papéis de bala e outros restos urbanos, me olha agora, flutuante, enquanto escrevo esta breve memória cinematográfica de Efigênia.

Chegamos à casa de Efigênia para registrar um pouco da sua vida migrante, desde os interiores de Minas Gerais, rumo ao sul. Mas ao cruzar o portão da casa, logo Efigênia nos enrodilhou nas suas narrativas labirínticas, cobra miúda coral cheia de cores e poções que é, com seus cabelos brancos, brancos como a geada negra que Efigênia não sabia o que era devastando os cafezais das terras vermelhas do norte do Paraná. 

Quando Efigênia viu aquela desolação de bananeiras e plantações arriadas, queimadas, em volta do barraco, achou que tinha havido ali um incêndio na madrugada: "pensei tudo errado...; é geada, sua burra!". Adeus à roça; de repente era viúva, cheia de filhos, no anonimato da capital paranaense. "Pelas ruas desoladas, ninguém me conhecia; eu sentava na calçada, e declamava poesia" — a narrativa de Efigênia é canto, verso e prosa, gestual, tons hipersensoriais reverberando nas centenas de esculturas penduradas pela casa. 

Fantasiada, vestido e chapéu algo maracatu hi-tech, a artista plástica Efigênia cidadã curitibana, agora com diploma na parede, foi lembrando de quando, sozinha no centro de Curitiba, viu no golpe do vento um redemoinho de papéis de bala e sacolinhas que vinham na sua direção. Comovida com aqueles pequenos seres coloridos, abandonados, catou os plásticos voantes, e, juntando-se, deles fez uma escultura de lixo. "Efi, efi... Enfim uma gênia!".

E nessa alucinação visionária trazida pelo vento, pois seria o vento o próprio Deus — nas palavras de outro personagem digno de filme — Efigênia nunca mais parou. Suas esculturas estão nas galerias do mundo. Nestes dias, um amigo enviou a foto de um guerreiro de Efigênia, dos exércitos deste outro que me olha aqui do lado, a cavalo, pendurado no guidão de uma bicicleta velha. A obra integrava a exposição de artistas que o Santander Cultural interrompeu em Porto Alegre por causa da queixa de grupos a quem a arte cumpre o seu papel de incomodar.

Queria ver a cara desses novos puritanos se vissem Efigênia se despedindo da gente, na frente de casa, mostrando o traseiro em uma abusada cambalhota no reverso do pudor dos seus oitenta e tantos anos de idade. 


 

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