Gilmar Marcílio: Viúvas - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião25/08/2017 | 09h00Atualizada em 27/08/2017 | 18h35

Gilmar Marcílio: Viúvas

Melhor rever alguns valores antes de nosso nome ser gravado numa lápide

Fico sabendo que na comunidade onde moro existem cinquenta e três viúvas. E nenhum viúvo. É um número espantoso, confirmando a ideia de que os maridos costumam morrer antes que as esposas. Por que será? Estou convicto de que elas sabem viver melhor, relacionando-se mais prazerosamente com a vida. Nós, homens, passamos a maior parte do tempo tensos, preocupados, buscando resolver alguma coisa. Que peso ter que mostrar ao mundo que somos fortes, que não nos entregamos. E há outros elementos a serem considerados nessa questão da longevidade feminina. Um deles pode ser uma certa tendência de estarem reconciliadas com o que as cerca. O mundo masculino é duro, implacável. O sinal de que se é bem sucedido passa pela capacidade de estar apto para brigar. Seguimos pelos dias muito mais estressados, procurando inimigos imaginários. Lembro de amigas e conhecidas e não consigo enquadrá-las neste perfil. Leveza, eis uma palavra mais próxima delas.

Precisamos considerar, também, o fato de que nós costumamos fugir das visitas médicas. Tire a temperatura usando o termômetro da sua família: é seu pai ou sua mãe que costuma fazer exames preventivos, que não faz drama toda vez que precisa consultar um profissional da saúde? Deixamos a doença se instalar e depois, quando não dá para adiar ou a dor se torna insuportável, cedemos. E com o passar dos anos e a fragilização do corpo, optar por isso equivale a praticar roleta russa. Vejo nas mulheres um cuidado admirável, um desejo de tratar bem a si mesmas, conscientes de que esse é o primeiro passo para uma boa relação com o que as circunda. Esse nosso receio nos habilita a sermos chamados de sexo frágil, não o contrário. Eu tenho pavor de agulhas e costumo sofrer com dias de antecedência quando preciso fazer algum procedimento que exija anestesia. Corajoso que sou, né? Nunca vi minha mãe ou minhas tias vacilarem em situação semelhante. Iam lá, faziam e era isso. O resultado é o que os números mostram.

Por fim, e talvez o mais importante a ser dito. Somos tão econômicos em nossos sentimentos que vamos criando uma couraça ao nosso redor, buscando o controle das vivências sexuais e afetivas. Só tentamos, pois isso não acontece na prática e acabamos gerando conflitos abissais. Rígidos, atormentados pela ideia de resistência, amamos mal, amamos torto. E entre nossos pares, Deus nos livre de demonstrar carinho. Abraçar e beijar deveria ser um direito inalienável, independente de serem dois, duas ou ele e ela.

Se continuarmos assim, só reforçaremos as atuais estatísticas. Melhor rever alguns valores antes de nosso nome ser gravado numa lápide. A única garantia é viver bem agora. O resto é prêmio. Se o merecermos.


 

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