Entrevista: em álbum solo, Paulo Miklos celebra a influência da música popular brasileira em sua formação - Cultura e Tendência - Pioneiro

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MPB25/08/2017 | 15h00Atualizada em 25/08/2017 | 15h22

Entrevista: em álbum solo, Paulo Miklos celebra a influência da música popular brasileira em sua formação

Ex-titã, que lança A Gente Mora no Agora, também falou sobre o atual momento da política brasileira

Entrevista: em álbum solo, Paulo Miklos celebra a influência da música popular brasileira em sua formação Paulo Sousa/Divulgação
"Este é o meu momento. De paixão pela vida, pela música e pelo trabalho (sobre o nome do álbum)" Foto: Paulo Sousa / Divulgação

Ao deixar os Titãs após 34 anos, Paulo Miklos, 58, tinha duas prioridades: consolidar a carreira como ator e investir no trabalho solo, até então relegado a dois registros pouco representativos (Paulo Miklos, de 1994, e Fui Ser Feliz e Já Volto, de 2001). Não por acaso, o recente A Gente Mora no Agora é considerado a verdadeira estreia longe da banda que o consagrou como uma das vozes e um dos rostos mais conhecidos do rock nacional.

Lançado no último dia 11, por enquanto apenas em plataformas digitais (nas próximas semanas sairá em CD), trata-se de um mergulho na música popular brasileira, no qual a diversidade que o termo carrega reflete também a escolha dos parceiros espalhados pelas 13 faixas do álbum: Emicida, Mallu Magalhães, Erasmo Carlos, Céu, além dos ex-colegas Nando Reis e Arnaldo Antunes, só para citar alguns. 

— Essa diversidade me representa — atesta Miklos, em entrevista concedida ao Almanaque esta semana, por telefone.

O lançamento também simboliza uma retomada na vida pessoal do ex-Titã, que em 2013 perdeu a mulher que esteve ao seu lado por 30 anos, Rachel Salém, vítima de câncer. Com a atual companheira, Renata Galvão, construiu uma parceria de vida e de trabalho. É ela quem assina a produção executiva do disco, que tem apoio do projeto Natura Musical.

No papo com o Almanaque, o cantor e coautor de Vossa Excelência (2005), umas das últimas músicas de protesto a reverberar na juventude roqueira, também falou sobre o atual momento da política brasileira. Confira:

Almanaque: Tu anunciaste a saída dos Titãs em julho de 2016. Como foi esse primeiro ano longe da banda?
Paulo Miklos: Foi movimentado como todos os outros anos. Eu fiz bastante coisa diferente, fiz televisão, estreei no teatro com a peça Chet Baker — Apenas Um Sopro e fiquei um tempo em cartaz com ela. Também fiz dois longa-metragens (Bodega e Como é Cruel Viver Assim), que vão estrear este ano. Trabalhei bastante como ator e na gestação deste novo disco, que foi um processo muito especial, que envolveu parceiros diferentes e foi toda uma história toda nova, muito criativa também.

A capa de A Gente Mora no Agora Foto: Reprodução

O álbum traz parcerias muito diversificadas. Como se deu a escolha?
Foram escolhas que se deram por afinidade e por admiração. Meus ídolos, como o Guilherme Arantes e o Erasmo Carlos, foram duas apostas e ambos me receberam muito bem. Aliás, em geral fui muito feliz porque as pessoas todas se dispuseram a trabalhar e compor junto. O mais importante é que em todos esses casos o resultado foi muito positivo. Compor uma música e ficar satisfeito com o resultado envolve muita tentativa e erro, vai tateando, tem muito a ver com intimidade, conhecer as preferências do parceiro. É muito complicado. E a gente conseguiu chegar a um resultado incrível, as canções são maravilhosas. Também tem parceiros da vida toda, como o Arnaldo Antunes e o Nando Reis, e os mais novos são artistas que eu sou fã, como a Mallu Magalhães, o Tim Bernardes, o Emicida, a Céu.

A carreira solo te possibilita explorar melhor a tua versatilidade?
Não tenha dúvidas. Acho que estou exercitando essa diversidade porque ela me representa. Quis deixar explícita a minha formação na música brasileira, e isso me deu a chance de trabalhar em diversas direções, explorar ritmos diferentes. Essa é a minha escola, o que eu sempre escutei, que é a música brasileira contemporânea. Até por isso o violão está muito presente. Neste processo descobri que o timbre do violão de nylon é como se fosse a cor da bandeira nacional. É uma coisa que a gente identifica e traz consigo todo um significado. Foi a partir do violão que fui construindo as canções.

O Nando Reis compôs Vou Te Encontrar pra ti. Qual o significado pessoal dessa música?
É uma canção muito emocionante. O Nando acompanhou a minha trajetória durante todos esses anos e compôs uma canção pensando em mim e a meu respeito. Isso é uma maravilha, é muito mais do que eu podia esperar. Ele me ligou um dia e falou "olha, eu fiz uma música pra você e sobre você". Pedi pra ele me mandar. Quando ouvi fiquei muito emocionado, porque é uma música realmente muito tocante. É uma das mais bonitas do disco.

Ex-colegas de Titãs, Nando Reis e Paulo Miklos reeditam parceria em composição de Nando para o amigo Foto: Fabrizio Martinelli / Divulgação

Clique aqui embaixo pra ouvir Vou Te Encontrar

"A Gente Mora no Agora" é um verso de A Lei Desse Troço, escrita pelo Emicida. Por que ele dá nome ao disco?
Ele identifica bem o conceito do disco. A ideia de estar vivendo este momento muito alto astral, solar, estou apaixonado, estou com a minha companheira, a Renata Galvão, que é a grande responsável por este disco existir. Foi ela, como produtora executiva, que viabilizou a possibilidade da gente concorrer no edital da Natura, e agora está cuidando do show. A gente tem uma parceria muito bonita de vida e de trabalho. Este é o meu momento. De paixão pela vida, pela música e pelo trabalho.

Como serão os shows?
Assim como o disco, vai ser o show do cantor. Nesse sentido eu sou bastante fominha (risos). Todo o resto do processo é muito colaborativo, mas na hora de cantar não tem pra ninguém. Montei uma banda muito legal, um quarteto com a Michele Cordeiro, na guitarra e no violão, a Michele Abu, na bateria, o Otávio Carvalho, no baixo, e o tecladista e diretor musical é o Renato Neto. O Renato está de volta ao Brasil após ter trabalhado 11 anos com o Prince, e está neste trabalho com a gente. Chiquérrimo! Além das canções do disco e também dos Titãs, deve ter algumas dos trabalhos que fiz recentemente. Como interpretei o Adoniran Barbosa num curta-metragem, o Chet Baker no teatro, e fiz um show do Noel Rosa, deve ter pelo menos uma música de cada um deles. Além de algumas surpresas dessas minhas referências da música brasileira.

Como é lançar um trabalho nesta época em que o disco físico é quase um detalhe?
Não foi um processo diferente do que me acostumei a fazer. Eu já parti para compor um grupo de canções que dialogam entre si. Há uma ideia no álbum. O que eu mais gosto é conhecer o álbum do artista, o que ele criou como um todo naquele período, naquele momento. A Gente Mora no Agora é um álbum por excelência, pra ouvir inteiro. Sou muito apegado a isso. A gente vai ter o trabalho físico, em CD e vinil, mas atualmente a gente ouve em outras plataformas. E acho que o prazer em ouvir um trabalho completo é o mesmo. Mergulhar naquele momento do artista, ouvir um punhado de canções que fazem sentido juntas, é uma coisa muito prazerosa. Há um prazer diferente em ouvir um trabalho de um fôlego maior. Atualmente a gente ouve um pedaço da música e diz que conhece um pouco do disco (risos). Mas depende da curiosidade de cada um, de ter contato com um trecho, se interessar em buscar o single e depois o disco inteiro.

Tu já consolidaste tua carreira na música e na dramaturgia. Ainda falta algo para te completar como artista?
Escrever um livro e plantar uma árvore? Filho eu já tive (risos). Eu amo cantar e atuar. Dá trabalho, mas é o meu cotidiano, e acho que essas duas coisas se completam como satisfação artística. Pretendo continuar tocando essas duas correntes.

Como tu vês a atual situação política no Brasil?
É muito complicado a população não estar mobilizada. Porque a gente vive um momento bastante complicado com nossas instituições, à beira de uma reforma política em que um montante de políticos envolvidos com corrupção pretende se manter nos cargos. A reforma política, que deveria ter sido feita há muito tempo, mas de forma positiva, pode ser muito negativa para o país. O mais importante agora são eleições diretas para restabelecer nossa democracia, que está correndo um risco seriíssimo.

A que se deve essa apatia de grande parte da população?
A maioria da população está anestesiada porque não sabe mais em quem acreditar. Foi feita uma campanha de ódio muito grande, alimentada pela grande mídia, e o resultado está aí: uma corrupção deslavada que é impossível encobrir, e a população assiste a tudo isso apática, infelizmente. O que esse governo está fazendo não foi corroborado, ninguém assinou embaixo. É um governo que não foi eleito, não tem representatividade.

Streaming
"A Gente Mora no Agora" pode ser ouvido nas plataformas Google Play, Spotify, Youtube, Deezer e Apple Music.


 

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