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Opinião30/08/2017 | 15h43Atualizada em 30/08/2017 | 15h43

Ciro Fabres: Mais viagem

Caxias do Sul, tão bonita, de história rica e identidade marcante, se recusa a ser uma cidade mais humana

Do que tenho recolhido por aí em viagens recentes:

1. A via costeira de uma capital do Nordeste é composta por duas pistas de tráfego, uma para ir, outra para voltar. Não interessa que ela seja movimentada, estratégica para o deslocamento facilitado pela orla: chega aos domingos, uma das pistas é trancada aos veículos e passa a receber gente andando de bicicleta, de skate, caminhando com o cachorro, com um amigo, ou simplesmente para a caminhada com o fone no ouvido. Os carros que dividam a outra pista, que fica em duas mãos.

Uma via estratégica, com duas pistas. Penso na Perimetral, em Caxias.

2. Retorno de Santiago do Chile, onde encontro, aos domingos, a cidade destinada prioritariamente às bicicletas. A ponto de a fiscalização de trânsito mobilizar um exército de fiscais para os principais cruzamentos, onde eles param os veículos, com a mão espalmada, para o ciclista passar soberano. Assim, forma-se uma cultura.

Penso nas bicicletas, e nas ruas de Caxias.

3. Na mesma Santiago, mais alguns exemplos. Os bairros periféricos e populares, em geral, contam com generosa estrutura de lazer. Como se fosse um parque a cada bairro. Espaçoso, com área para diversão da criançada, área verde, quadra para esportes. Um estímulo à convivência, quase na porta de casa, o que é, ao mesmo tempo, uma política de segurança pública. Santiago é uma capital bem menos insegura do que as cidades que conhecemos aqui.

Inveja. Penso nos bairros de Caxias, em especial naqueles sem áreas de lazer, como o Jardelino Ramos e o São Vicente, por exemplo.

4. Outro exemplo: o centro histórico da capital chilena é repleto de ruas estreitas, como o de Porto Alegre ao redor da Rua do Praia. No entanto, domingo à noite, essas ruas, que poderiam ser quase desertas e inseguras, como as proibitivas ruas de Porto Alegre, estão repletas de gente caminhando, passeando, convivendo, com atrações gastronômicas de portas abertas. Pontos de encontro para a população, como se disse, é política de segurança pública. E das boas.

Mais inveja. Penso no centro histórico de Caxias do Sul, largado, abandonado, degradado.

5. Vale registrar, ainda, a arquitetura clássica da ampla maioria dos prédios. A cidade não esconde seus traços, sua identidade, sua história, que persiste bela e visível.

Penso na Casa Rosa, da antiga Chácara dos Eberle, agora espremida entre duas torres ditas modernas, escondidas e sonegadas à cidade.

São apenas algumas anotações, esparramadas para evidenciar uma constatação inevitável: Caxias do Sul, tão bonita, de história rica e identidade marcante, se recusa a ser uma cidade mais humana.

Uma pena e um desperdício.

 

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