Aplaudido de pé, Antonio Pitanga recebe Troféu Cidade de Gramado - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Homenagem24/08/2017 | 13h54Atualizada em 24/08/2017 | 14h03

Aplaudido de pé, Antonio Pitanga recebe Troféu Cidade de Gramado

Ator fez discurso emocionado ao lado da filha, Camila Pitanga

Aplaudido de pé, Antonio Pitanga recebe Troféu Cidade de Gramado Felipe Nyland / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Felipe Nyland / Agência RBS / Agência RBS

Aos 78 anos, Antonio Pitanga voltou a ser criança na noite desta quarta-feira. Homenageado do 45º Festival de Cinema de Gramado com o Troféu Cidade de Gramado, um dos maiores atores brasileiros foi ovacionado pelo público que lotou o Palácio dos Festivais ao subir ao palco para receber o reconhecimento das mãos do prefeito, João Alfredo de Castilhos Bertolucci, e proferir um discurso emocionado, pontuado pelas palmas da plateia.

— A minha história se funde com a história de Gramado. Então essa noite eu sou criança. Eu sou jovem. Eu sou o Brasil de ontem e o Brasil de hoje. O Brasil de ontem, nervoso, continua o Brasil de 2017, nervoso e que nos chama de sentinela, vigilantes. Nós somos fazedores de emoções, de cinema, contadores de história — afirmou.

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Com um currículo que soma participações em mais de 60 filmes e cerca de 40 produções para a televisão em cinco emissoras, o baiano Antonio Luiz Sampaio, que adotou o sobrenome Pitanga com o sucesso de seu papel de estreia no filme Bahia de Todos os Santos (1960), lembrou da trajetória do Festival de Gramado, desde as primeiras edições:

— Eu quero agradecer muito ao Rubens (Ewald Filho), ao Marcos (Santuário) e a toda a direção que compõe esse festival, por essa honraria, por esse momento tão singelo, tão generoso, de me homenagear nesta cidade que tem uma importância na formação cultural, racial, social, de gênero, de democracia. O Brasil estava passando por um dos momentos mais difíceis, que era a ditadura, e nós vínhamos pra cá, desde 1973, e tinha aqui, num primeiro momentos os gaúchos, que vinham de vários lugares do Rio Grande do Sul para começar a fazer plateia, e logo, logo foi criando uma bochicho, correndo à boca miúda, varrendo não só o interior do Rio Grande do Sul, mas todo o Brasil, que vinha pra cá pra fazer o grande debate da democracia.

Em sua fala, Pitanga destacou a identidade própria do cinema brasileiro, segundo ele, carregada de "uma interpretação visceral, emocional e com uma consciência política":

— Quando vocês me chamam, eu tenho que tirar o chapéu, porque é o coletivo. Eu sou Leon Hirszman, eu sou Cacá Diegues, eu sou Glauber Rocha, eu sou Roberto Pires, eu sou Antônio da Fontoura, eu sou Walter Lima Júnior, eu sou Ruy Guerra, eu sou Anselmo Duarte. Quando vocês me homenageiam, estão homenageando todo esse cinema brasileiro, toda essa garotada que ditou razão e ditou democracia e vontade de ter uma país mais bonito.

Ele citou ainda o ex-presidente Fernando Collor de Melo, em cujo governo foi extinta a Embrafilme, uma empresa estatal produtora e distribuidora de filmes:

— Construímos um cinema mesmo com o advento do Collor, e depois do Collor, olha que loucura, que coisa maravilhosa que passa por Gramado: até a chegada do Collor, era o eixo Rio-São Paulo. Sai o Collor, derruba o Collor, o impeachment do Collor (1992), o cinema brasileiro vem com uma voracidade e a descentralização acontece. É Minas Gerais, é Pernambuco, é Maranhão, é São Paulo, é Rio, é aqui, é a Casa de Cinema de Porto Alegre. Um dos melhores cinemas se faz nesse momento. A gente está fazendo o melhor cinema do mundo.

E finalizou:

— Gramadenses, povo do Rio Grande do Sul, povo do Brasil, muito obrigado por esse momento carinhoso que me balançou todos os arvoredos dessa criatura. Muito obrigado mesmo, porque é o cinema que desde a minha infância me dá esse instrumento socializador que é a cultura, que me dá o passaporte de uma cidadania justa e correta.

 Antonio Pitanga recebe Troféu Cidade no Festival de Cinema de Gramado ao lado da filha, Camila Pitanga Foto: Diego Vara / Divulgação

Chamada pelo pai para subir ao palco, a atriz Camila Pitanga, que assina com Beto Brant a direção da cinebiografia Pitanga, exibida à tarde no Palácio dos Festivais, estava orgulhosa.

— É seu dia, uma homenagem feita a você. Uma trajetória toda do cinema. Não é à toa que as pessoas estão te aplaudindo de pé. A gente está falando de você, da sua história de vida, da sua história de artista, da sua história de pai, como "pãe". Que bom que você está podendo celebrar com seus colegas do cinema, sua família, a nossa família do cinema.

Ao falar do filme sobre o pai, lembrou do processo de produção e fez um paralelo ao atual momento político do Brasil:

— O filme, que começou com o desejo de uma filha que admira seu pai, com outro filho, porque Beto se tornou sim um outro filho escolhido por ti, escolhido por ele, começou com uma coisa muito nossa, um amor nosso, um desejo nosso de contar a sua história. Só que o mundo mudou, a gente está num país com um retrocesso imenso e acho que o filme acabou tendo uma dimensão, um diálogo, uma outra função do que originalmente a gente tinha. A gente está falando de um homem que resistiu e resiste hoje com amor, com alegria, com amizade. A gente está falando de uma geração que deu a mão, que não teve medo de mostrar a cara, que não teve medo de se arriscar, de se colocar à toda prova. E está aí um legado para os jovens brasileiros. É uma luz para nós, um farol mesmo. A gente tem que lutar, tem que resistir. É tempo de resistência, e é tempo de uma resistência que convida as pessoas a pararem junto. Nós precisamos dar as mãos. A gente precisa pensar em reconstruir esse país juntos. Com o abismo social que temos, precisamos dar as mãos.

Trajetória

Foto: Diego Vara / Divulgação

Antonio Pitanga fez história tanto na televisão brasileira como no cinema nacional. Entre muitos outros feitos na sétima arte, estrelou o primeiro e o último longa-metragem de Glauber Rocha — Barravento, em 1961, e A Idade da Terra, em 1978. Sob a batuta do diretor baiano, ainda interpretou personagens em outras duas produções.

Tornou-se ícone do Cinema Novo, não apenas pela parceria com Glauber Rocha, mas por suas participações em clássicos do movimento como O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, e em produções dos diretores Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Walter Lima Jr. O convívio com os mestres inspirou no ator o desejo de também dirigir, que se concretizou em 1978 com Na Boca do Mundo.

Em mais de 60 anos de profissão, ainda cruzaria os caminhos de importantes diretores brasileiros, como Rogério Sganzerla, Paulo César Saraceni, Sérgio Resende, Zelito Vianna, Karim Aïnuz, Carlos Reichenbach, Hugo Carvana, Silvio Tendler, Fábio Barreto e Beto Brandt, que também dirigiu um recente documentário sobre a trajetória do artista.

Se destacou até em produções internacionais — por sua atuação em La Mansión de Araucaima, película colombiana de 1986, foi escolhido Melhor Ator no festival de Bogotá. Ao todo, soma participações em mais de 50 filmes. Na televisão, foram quase 40 produções, em cinco emissoras nacionais. No teatro participou da primeira montagem da peça Após a Chuva (2007/2008), entre outros trabalhos.


 

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