André Costantin: Gardel à portuguesa - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião24/08/2017 | 14h49Atualizada em 24/08/2017 | 14h49

André Costantin: Gardel à portuguesa

Porto Alegre sempre foi aos meus olhos esse porto de extremos

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

No relevo do bronze, na face norte do obelisco — onde repousa o espírito da cidade? Está no aroma do café, nas conversas das venezianas, no mijo das calçadas em quarta-feira de cinzas? Porto Alegre sempre foi aos meus olhos esse porto de extremos, tola metrópole, bela, repugnante, delicada.

Certa noite da cidade em transe, um amigo de Rio Grande, há muito exilado no mundo, convidou-me para conhecer um restaurante na Rua da República: uma velha porta de madeira e caixilhos de vidro; a cozinha de um homem só. O banheiro era uma pintura da sóbria decadência da capital. As paredes, com retratos de Carlos Gardel, resmungavam tangos rodados em fitas cassete. 

Dois senhores esguios, de ares reservados, eram os donos do lugar. Um deles tocava a cozinha, ombros arqueados sobre o filé à portuguesa — especialidade da casa. O outro servia impaciente aos clientes, insinuando que já era hora de irem embora. No centro do cenário, um cão algo dachshund, sentado à porta da cozinha sem porta, escutando "por una cabeza, de un noble potrillo..."

Clientes despachados, filé no forno, vieram os anfitriões conversar e fumar à nossa mesa — sem no entanto tomar acento. Porta fechada, a salvo dos fiscais da prefeitura. Ambos uruguaios, conheceram-se nos mares do mundo, marujos mercantes. O mais velho, de origem grega, narrava o dia em que apertara a mão pesada do seu patrão, Aristóteles Onassis. 

Mas o sangue fervia quando o assunto era Gardel. Incauto, citei a teoria do escritor Aldyr Garcia Schlee: o mito do tango não seria argentino, nem francês, mas uruguaio de Tacuarembó, parido de uma relação incestuosa não muito além da fronteira do Brasil. Foi então que o pequeno e sagrado mundo do Restaurante Fofa — era o nome do lugar — veio abaixo.

Naquele momento escrevi um roteiro na minha cabeça: "Gardel à Portuguesa" seria o nome do filme — uma brutal e cômica sequência de assassinatos em um pacato estabelecimento de Porto Alegre. Vários homens envolvidos e um dachshund chamado Garufa; no centro dos acontecimentos, uma discussão sobre Carlos Gardel.

Mas o mundo mágico não resiste aos protocolos da realidade. O restaurante fechou para sempre; não resistiu aos tempos do politicamente correto. Na semana passada, daquele distante amigo veio a notícia da morte de um dos donos do Fofa. Os olhos do cão Garufa, nome de um tango gardeliano, fixam a imagem de uma esquina do sul — guardam resquícios do espírito da cidade. Quanto à mim, ficou um roteiro. Meus melhores filmes são os que nunca fiz.

 

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