André Costantin: Fronteira - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

Opinião31/08/2017 | 08h00Atualizada em 31/08/2017 | 08h00

André Costantin: Fronteira

Nos mapas reais e simbólicos, busco as fronteiras

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Hoje à noite o Brasil entra em campo. Se a seleção vestir seu clássico uniforme, veremos uma vez mais a camisa amarela, ícone máximo da brasilidade — para além da bandeira nacional, aprisionada no estigma "ordem e progresso". A camisa amarelo-ouro, que levou algum cronista a cunhar o termo seleção canarinho, há 65 anos baila na grama para nos desdizer e também confirmar, em diferentes quadrantes históricos, o mau amor que temos por nós mesmos enquanto nação.

Em um país que amava o futebol nos campos de várzea e no Maracanã de cem mil almas verdadeiras, antes de tudo virar negócio podre e ilusões padrão Fifa, pouca gente sabe que a mística camisa amarela nasceu na fronteira do extremo sul do Brasil.

Foi nas imediações da ponte fortificada entre Jaguarão e Rio Branco, pleno pampa, onde a camisa foi desenhada. Durante uma sessão de cinema, do lado uruguaio, o filme foi interrompido para o locutor anunciar solenemente que o Uruguai sagrava-se bicampeão mundial, na final da Copa do Mundo de 1950, disputada no Rio de Janeiro. Um rapaz ia às lágrimas: não sabia se chorava de tristeza pelo Brasil, ou de alegria pelo Uruguai.

Pouco tempo depois, aquele jovem da fronteira, que já trilhava o caminho das letras e das artes, criaria o novo uniforme oficial da seleção brasileira de futebol. Até então o Brasil jogava de branco. Era preciso inventar uma nova identidade. Lançou-se um concurso nacional com esse fim — e o rapaz de Jaguarão, coração fronteiriço, trouxe à luz uma alma amarela para a seleção do Brasil.

A magia da fronteira está no além de nós, no mirar o outro lado — para então ver-se melhor. Da camisa brasileira ao mito Elvis Presley — ícones do ocidente — sopram ares de fronteiras. Toda a tralha turística do reinado de Elvis, espalhada em Graceland e arredores de Memphis, tem menos a dizer do que a modesta casa de madeira onde ele nasceu, na cidade de Tupelo, fronteira entre o Mississippi e Tennessee. Consta que a casa ficava na última rua dos brancos, na fronteira com o bairro dos negros — o gospel e o country no meio da rua, no redemoinho do rock.

Nos mapas reais e simbólicos, busco as fronteiras. Transbordar essas linhas é entrever o que desejamos ser. Sem elas somos retos, monolíticos, talvez até mais felizes, mas só isso. A montanha, o campo, rios interiores de passos rasos ou impossíveis travessias; lá adiante o mar que me sonha navegador. A fronteira é a fronte, o que está a nossa frente. Divide, separa; mas também nos lança ao amarelo-ouro e às negras melodias.

 

Veja também

Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros