"Toda repressão gera uma reação", afirma Guilherme Kastrup, que ministrou oficina de produção musical em Caxias - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Entrevista24/07/2017 | 11h22Atualizada em 24/07/2017 | 11h25

"Toda repressão gera uma reação", afirma Guilherme Kastrup, que ministrou oficina de produção musical em Caxias

Produtor considera que há uma clara tentativa de emburrecimento do povo brasileiro através de ataques à produção cultural e aos processos educacionais

"Toda repressão gera uma reação", afirma Guilherme Kastrup, que ministrou oficina de produção musical em Caxias Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Guilherme Kastrup tem em A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares, seu trabalho de produção mais conhecido  Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

O título de melhor álbum pop de 2016 para A Mulher do Fim do Mundo, da cantora Elza Soares, no prestigiado Prêmio da Música Brasileira, coroou um trabalho transgressor. Capitaneado pelo produtor Guilherme Katrup, 48, teve como grande mérito a sinergia entre uma ¿grande força da natureza¿, como o produtor se refere à cantora, com um talentoso núcleo criativo que reúne alguns dos principais músicos e compositores da nova cena paulistana. Esta semana, alguns dos segredos deste trabalho foram revelados em uma oficina de produção que Kastrup ministrou em Caxias do Sul, dentro do projeto Tum Tum Oficinas. 

Carioca radicado em São Paulo, Kastrup abandonou a faculdade de música para estudar a música popular brasileira na essência, frequentando terreiros e festas populares e mergulhando nos sons tradicionais que são base da nossa música. Ao encontrar nestas raízes alguns paralelos com a música eletrônica, outra paixão, tornou-se uma referência no terreno da experimentação musical. Não por acaso, por 10 anos acompanhou outro dos mais inventivos artistas brasileiros, o ex-titã Arnaldo Antunes. Em entrevista ao Pioneiro na última quinta-feira, Guilherme Kastrup, que também já trabalhou com Adriana Calcanhoto, Zeca Baleiro e Badi Assad, entre outros, falou sobre a concepção de A Mulher do Fim do Mundo, os diferentes significados que encontra na arte de tocar e produzir música e o que está projetando para o futuro. Vale adiantar que um novo disco de Elza Soares está no horizonte. Confira:

¿A Mulher do Fim do Mundo¿ é um disco de cair o queixo. Como foi a concepção deste trabalho?
Guilherme Kastrup
: O trabalho começou com uma conversa entre o Kiko Dinucci e eu após um show do Cacá Machado – um compositor paulistano cujo disco Eslavosamba eu produzi mais ou menos com o mesmo núcleo criativo que depois trabalhou em A Mulher do Fim do Mundo. Quando a gente fez esse disco, convidamos a Elza para participar de uma das músicas e também do show de lançamento. Para o show, nós preparamos um arranjo para a clássica Volta Por Cima, com a estética e a formação que o grupo já fazia, com baixo, batera... Quando ela ouviu, adorou. Ficamos com isso em mente, de fazer um trabalho que fosse o encontro da estética deste grupo com a dela, um encontro de intenções e de estéticas do samba mais subversivo, como ela mesma diz. Senti que havia uma conexão muito forte ali. A ideia inicial era fazer um disco de releituras de samba, mas com o tempo surgiu a sugestão de fazer um trabalho de inéditas. Pensei: ¿Será que ela vai topar, à essa altura da vida, ter que aprender músicas novas?¿. Fui falar com ela e ela disse: ¿Bora¿. Porque a Elza é assim, está sempre acelerando a gente nas ideias mais loucas. Quanto mais louco, mais ela gosta.

O resultado te surpreendeu?
A Mulher do Fim do Mundo é uma conjunção de muitos fatores. Tem a Elza, que sempre foi essa força absurda da natureza, e que com a idade e toda a carga de vida dela se torna ainda mais surpreendente. É uma representante da vitória do povo brasileiro na essência. Do povo que saiu do planeta fome, que batalha por um país mais igualitário. E junto com isso tem a potência do grupo criativo, que representa uma geração da música que está se fazendo em São Paulo, que hoje em dia é derivada de uma enxurrada migratória e de vivências da própria tradição paulistana. Isso tudo misturado num liquidificador veio com uma força muito grande, ainda mais em meio ao momento político que estamos vivendo.

Também parece muito presente uma noção de empoderamento...
Empoderamento feminino, empoderamento negro, empoderamento LGBT. Ela compra uma briga social e é uma voz muito poderosa nisso, cantando sobre as letras de uma juventude de pouco mais de 30, que tem um discurso muito direto. Nessa junção rola uma conexão fortíssima.

Artistas como Ney Matogrosso e Caetano Veloso também têm recorrido a arranjos mais modernos e experimentais. Isso tem a ver com o declínio da indústria musical?
Acho que o artista que está vivo e ativo artisticamente procura se reciclar o tempo todo. Ney e Caetano são artistas desse tipo, assim como a própria Elza. Isso envolve o encontro com novos artistas, diálogos com novas linguagens. Mas acho que tem a ver, sim. O crescimento da linguagem da música independente, que hoje talvez seja preponderante até mesmo à do mainstream, também os contamina de certa forma.

De Adriana Calcanhoto a Zeca Baleiro, tu já trabalhaste com artistas incríveis. Há algum que te inspire em especial?
São muitos, é quase injusto citar um. Mas um artista muito marcante na minha vida foi o Arnaldo Antunes. Acompanhei o Arnaldo por quase 10 anos da minha vida e ele influenciou demais minha forma de pensar artística, profissional e humanamente. É um cara de uma personalidade muito forte.

Kastrup no estúdio da produtora Noise, em Caxias do Sul, na última semana Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Tu estudas a música brasileira a partir das festas populares, dos terreiros. Como é isso?
Teve uma época que descobri a música tradicional, que muitas pessoas chamam de folclórica mas eu prefiro evitar, porque folclórico dá a impressão de que é uma coisa morta e presa a um museu. As músicas de terreiro ou de festividades religiosas ou pagãs são o grande celeiro da música brasileira. Os jongos, os maracatus, os batuques, os moçambiques, as festas religiosas e populares são a base de tudo que é criado na música brasileira. Quando descobri isso fiquei muito apaixonado e larguei a faculdade pra estudar isso. Fiz faculdade de música muito tempo, estudava técnicas, os eruditos da bateria, mas quando vi a primeira vez os velhinhos do interior de Pernambuco tocando aqueles frevos e maracatus, tudo ao contrário do que a academia me dizia, toda aquela coisa de posição correta e french grip, american grip,... eu pensei que era o ¿Pernambuco grip¿ que eu queria estudar (risos). Aí mergulhei nessa história da música popular.

Tocar, compor e produzir. O que essas três coisas significam pra ti?
A hora de tocar é sempre o mergulho mais profundo. É quando esqueço de mim mesmo e estou totalmente envolvido mental e corporalmente naquilo. Compor é algo que apareceu mais tarde e de maneira mais dolorosa na minha vida. Só descobri a composição quando comecei a mexer com recursos eletrônicos, especialmente os programas de edição, porque eu componho como quem compõe música eletrônica, manipulando áudios, jogando daqui pra lá, mergulhando em processos de edição após sessões de improviso que me fazem reorganizar e descobrir coisas novas. E produzir é uma delícia, embora seja um processo muito mais racional e mais lento. Se quando toco eu procuro desligar o lado racional, a produção exige uma racionalidade maior o tempo todo. Mas eu gosto de organizar processos, planejar o projeto como um todo e pensar como se fosse a construção de uma casa, primeiro fazendo a planta, depois começar a obra, fazer subir as paredes, depois fazer o acabamento. Acho isso fantástico.

Qual o desafio para quem faz música hoje?
É uma época muito intensa e muito veloz. Nesses últimos anos, especialmente depois do golpe, em que a gente tem um processo de nítida busca repressiva, como havia em 1964, de ataques frontais à cultura e aos processos educacionais, percebe-se que toda repressão gera uma reação. Sinto que toda essa proliferação da produção musical permitida pela internet, logo depois das tentativas de repressão, ao contrário do que (os governantes) pretendem, fizeram os artistas reagir com mais produção ainda, mostrando que vamos continuar produzindo, transmitindo nossa mensagem e educando as pessoas. Estão atacando o que há de aparato para sustentação econômica da cultura, tentando derrubar leis de incentivo, o que pra mim é um projeto claro de emburrecimento do povo brasileiro como um todo, para que tenha menos acesso à cultura e seja mais fácil de controlar. Mas a cultura é mais forte que isso tudo.

No que tu estás trabalhando agora?
Estou mergulhando no processo criativo do meu segundo disco solo (o primeiro é Kastrupismo, de 2013), bem focado nisso, e ainda com planos para A Mulher do Fim do Mundo. Queremos fazer um DVD, que era algo que quando saiu o golpe estávamos em vias de aprovar o projeto e acabou não acontecendo o financiamento, mas agora reacendeu uma nova possibilidade e até o final do ano acho que vai sair, e também estamos pensando em fazer um novo disco com a Elza.

 

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