Pedro Guerra: Eu quero fugir - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

Opinião21/07/2017 | 16h00Atualizada em 21/07/2017 | 16h00

Pedro Guerra: Eu quero fugir

Nas vezes em que essa vontade aparece, o meu destino é sempre uma incógnita. Eu só sei que eu quero estar lá

Foto: Antonio Giacomin / ESpecial

Tem vezes que eu tenho vontade de fugir. Eu quero empacotar tudo e ir para bem longe, sair de fininho sem avisar ninguém. Na verdade, eu nem sei se gostaria de empacotar muita coisa. Qualquer viagem exige um desprendimento: de objeto, de corpo, de alma. Nas vezes em que essa vontade aparece, o meu destino é sempre uma incógnita. Eu só sei que eu quero estar lá. E acho que a grande graça é não saber onde esse "lá" fica.

Nas últimas semanas tenho me encontrado mais crítico. Até cheguei a perguntar para algumas pessoas próximas se eu estou velho e já virei aquele tio chato e reclamão. Mesmo com as negativas, eu acho sim que estou mais exigente. De uns tempos pra cá, algumas conversas me cansam. Algumas atitudes me parecem sem ritmo, e para mim gente com tempo livre demais me dá coceira. Tiveram ideias que eu não consegui fingir e ofereci um sorriso amarelo, assim como tiveram situações em que eu perdi a paciência e quase joguei tudo pro alto. É muito mimimi pra pouca mão na massa, cheguei a pensar. Não quis me culpar pelo esgotamento, até porque eu tenho certeza: tem vezes que a gente cansa.

Odeio admitir que nesse ritmo louco a saída foi me dopar. Não que eu quisesse, mas o stress, as dores de cabeça, a bronquite conquistada pelo clima indeciso, as crises de asma... Bem, a farmácia saiu no lucro. Em meio a isso, li um texto que a Eliane Brum escreveu para o El País onde ela disse que estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Mais do que isso, "o expediente nunca acaba" — trabalhar 24/7 é mais do que um rótulo descolado de um sujeito workaholic, pois ser senhor e escravo ao mesmo tempo virou necessidade. Quanto a isso, a escritora alertou (para mim, para você e para todos nós): o infarto da alma está aí.

Parei para pensar sobre o motivo pelo qual eu gostaria de fugir. Eu queria ir para longe porque estava cansado, prestes a me render. Como já escrevi por aqui, hoje em dia o silêncio é o maior tesouro que o homem pode encontrar, e a sociedade moderna parece fazer de tudo para extingui-lo do mapa. Todos nos alcançam, em qualquer lugar e a todo momento. Estamos disponíveis, somos ouvintes full time. E isso esgota. Não é questão de termos nos tornado o tio chato e reclamão ou não, e sim de termos atingido o nosso próprio limite.

Nessa semana chegaram as férias. Férias? Olhei para a minha agenda e a lista de afazeres parecia não ter fim, porém todas as atividades poderiam ser desempenhadas diretamente do meu escritório, sozinho e em silêncio. Foi aí que percebi que, finalmente, consegui viajar e fugir. No fim das contas, o meu "lá" é aqui mesmo.


 
 

Siga o Pioneiro no Twitter

  • pioneiroonline

    pioneiroonline

    Pioneiro.comHomem sofre fratura nas duas pernas em empresa de Caxias do Sul https://t.co/NlRqVeBNVa #pioneirohá 7 horas Retweet
  • pioneiroonline

    pioneiroonline

    Pioneiro.comEstacionamento na Avenida Rio Branco volta a operar em Caxias https://t.co/s6RxA2Xnx1 #pioneirohá 8 horas Retweet

Veja também

Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros