Natalia Borges Polesso: Fragmentos - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião04/07/2017 | 08h00Atualizada em 04/07/2017 | 08h00

Natalia Borges Polesso: Fragmentos

Para todo o lugar que eu olhava tinha história

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Atravessando a praça, lembrei-me do dia que voltei à Caxias pra morar. Minhas memórias de infância são ligadas aos dias no Madureira, jogando bola, descendo a grama do Hospital Virvi com papelão, quebrando braços e arrancando pedaços de unha nessas aventuras, coisa de criança. Lembro dos carrinhos de lomba que o seu Darci fazia, com as chapas de compensado da Gethal, onde meu avô trabalhou. Meus pais se mudaram para Novo Hamburgo, eu fiquei aqui com meus avós e lembro da vó Neura me contando causos em vacas a perseguiam e em que ela tinha que subir em árvores para escapar, ou então, a história de quando minha mãe fugiu com o cachorro. Isso lá na Vacaria, dizia! Fugiu com o cachorro! Queria ir pra Caxias! 

Ela me contava histórias sobre como minha mãe salvou minha tia de se afogar na sanga, isso aqui em Caxias já. E eu pensava: Uma sanga!? Sem saber direito o que era aquilo. Depois ela me mandava pra escola e quem ia me buscar era o tio Luciano, na bicicleta vermelha com freio no pedal. Eu tinha medo, porque o Luciano fazia as curvas deitando a bicicleta! Eu fechava os olhos, e sentia o vento bater na cara, até a velocidade diminuir, na subida da Ângelo Chiarello. Eu tinha seis, sete anos. Aí fomos morar em Campo Bom. Parecia que tínhamos voltado no tempo! Eu pegava o ônibus pra voltar da escola, às vezes. Sozinha! Com sete anos. Uma vez a peguei direção errada, chorei tanto! O motorista parou o ônibus e esperou com todos os passageiros dentro até passar o que ia na outra direção. Todos foram muito solidários, lembro.

Visitávamos a vó e o vô bastante, e lembro de me sentir tensa em Caxias, porque era muito movimentada e grande. Uma vez fui comprar baquetas com meu tio, e ele me levou para um tour nas lojas de música da cidade. Aquela informação eu reteria para mais tarde. Compramos as baquetas e saímos pela Júlio, que eu achava imensa. Naquela altura, eu tinha onze, doze. Meu pai estava ensinando minha tia a dirigir e fomos todos aos pavilhões para assistir ela aprender a manejar o fiat 147, que era da firma. Eu sentei com meu irmão e minha irmã pequeninha lá em cima dos morros. Naquele dia, escorreguei e rolei até uma poça d¿água com barro. Fui embora toda suja, tendo que ficar meio em pé pra não sujar os bancos do carro.

Quando eu fiz 16, a gente voltou pra cá. E eu atravessei a praça, andei pela Júlio, fui até o Madureira pra ver o morro do hospital, nada era tão grande nem tão intenso como eu imaginava. Mas para todo o lugar que eu olhava tinha história, minha história, dos meus amigos, da minha família, rastros por onde passamos.

 

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