Marcos Piangers fala sobre paternidade, machismo e os planos para o futuro - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Entrevista10/07/2017 | 11h00Atualizada em 11/07/2017 | 10h38

Marcos Piangers fala sobre paternidade, machismo e os planos para o futuro

Autor do livro "O papai é pop" ministrará palestra em Caxias, na próxima quarta-feira

Marcos Piangers fala sobre paternidade, machismo e os planos para o futuro Julio Cordeiro/Divulgação
Foto: Julio Cordeiro / Divulgação

Radialista e apresentador do programa Pretinho Básico, palestrante, comunicador digital e, principalmente, pai da Anita e da Aurora. Com tantas atribuições, Marcos Piangers ainda tem tempo para escrever crônicas, algumas delas compiladas no livro O Papai é Pop (Belas Letras, 112págs., R$ 29,90), que já vendeu mais de 100 mil cópias. Filho de mãe solteira, Piangers combina a história de sua infância com os aprendizados da paternidade para falar de forma aberta, divertida e emocionante sobre as alegrias e as dificuldades de ser pai nos dias atuais. Na quarta-feira, ele estará em Caxias do Sul para ministrar a palestra O Papai é Pop, na qual vai falar do aprendizado ao lado das filhas e da mulher, Ana Cardoso.

Ao Pioneiro, Piangers desvendou um pouco esse mundo repleto de desenhos animados, fraldas, preocupações, alegrias e grande aprendizado. Confira:

Pioneiro: "O Papai é Pop" vendeu mais de 100 mil cópias. Na tua opinião, o que toca tanto quando se fala em paternidade e por que a tua maneira de contar criou tanta identificação nas pessoas? 

Piangers: Acho que as pessoas se identificam com histórias verdadeiras. A minha história é de constante descobrimento paternal, eu estou o tempo todo entendendo o que é ser pai e aprendendo com a minha esposa, minha mãe e as minhas filhas a importância de os homens serem desconstruídos e participarem mais da criação dos filhos. Portanto, acho que as pessoas se identificam com a minha fragilidade, com a minha vulnerabilidade. É muito difícil você escrever sobre esse assunto e se abrir tanto, ser tão visceral. É duro emocionalmente se abrir e colocar as suas vulnerabilidades na mesa. Mas eu fiz isso e as pessoas foram muito respeitosas com o meu sentimento e a minha relação familiar, e da mesma forma respondem com histórias de transformação e muitas vezes me ajudam a continuar falando sobre esse assunto, porque é um assunto novo, de descoberta, e a todo tempo eu estou aprendendo.

A tua história é a de um filho criado apenas pela mãe, sem conhecer o pai. Tu acreditas que os homens têm assumido mais responsabilidades frente à paternidade ou ainda é uma relação injusta com as mulheres?

Eu respondo as duas perguntas e elas não são contraditórias. Eu acho, sim, que é um assunto mais discutido, que pais estão assumindo mais a sua responsabilidade, que é uma geração que tem muito mais quantidade de pais participativos, amorosos, papais "pop". Mas, ao mesmo tempo, ainda é uma relação injusta com as mulheres. As mulheres ainda fazem mais, o Brasil é um país desigual, violento, que apresenta números chocantes de abandono parental, especialmente do lado dos homens. Algumas estatísticas apontam que 6 milhões de mulheres são mães solteiras, em algumas cidades brasileiras os índices chegam a 70% de filhos sem o nome do pai na certidão de nascimento. Tantos outros têm o nome do pai na certidão mas foram abandonados, outros têm o pai dentro de casa mas não são pais participativos. Acho que existe uma evolução, mas a gente ainda tem de discutir muito esse assunto para melhorar.

Qual foi teu maior aprendizado após ter te tornado pai?

Meu maior aprendizado diz respeito à construção masculina. Diz respeito a como o homem é incentivado a não demonstrar seus sentimentos, a não chorar, a não dizer eu te amo, e o quanto isso atrapalha a nossa vida familiar. Nossas mulheres se frustram, porque nós não gostamos de conversar sobre os nossos sentimentos, sobre aquilo que a gente está passando, sobre as dificuldades das relações afetivas, nossas namoradas se frustram porque a gente não demonstra carinho e gentileza nem diz "eu te amo" em público, na frente dos amigos, com medo de chacota. E a nossa vida afetiva é prejudicada pela nossa falta de treino na relação com os nossos filhos. Desde pequeno a gente não é incentivado a ser participativo, a trocar fralda, virar noite, levar na creche. A gente acha que isso é trabalho de mãe, e por isso perde importantes momentos de vínculo com os nossos filhos.

Piangers relata vivência ao lado das filhas Aurora (menor) e Anita Foto: Giselle Sauer / Divulgação

A Ana, tua mulher, também escreve crônicas. Tanto nos teus textos quanto nos dela aparece forte a ideia do feminismo e de uma criação desconstruída de preconceitos. Por que é tão importante criar meninas empoderadas e meninos menos machistas?

Eu acho que muitas das prisões que homens e mulheres vivem são essas construções sociais que nos dividiram. O feminismo não é uma briga entre homens e mulheres, pelo contrário, é um pedido de trégua, uma vontade de fazer as pazes. Nós, homens, temos as nossas prisões, as nossas correntes sociais, que nos incentivam a ficar nesse papel de pagador de conta e de provedor da casa. Já a mulher tem a pressão social de o tempo todo ser bonita, maravilhosa, boa mãe e bem sucedida no trabalho. O que, eu diria, é impossível. Quando a gente discute feminismo e empoderamento feminino e todas essas questões relacionadas à igualdade de gênero, na verdade estamos tentando construir uma história mais feliz pra todo mundo. Para que você tenha um casamento mais feliz, para que sua mulher seja mais realizada, para que você seja mais feliz ao lado dela, e consequentemente para que os seus filhos sejam mais felizes com um pai e uma mãe tranquilos, que entendem o seu papel, que não é a mãe fazendo tudo e a mãe pagando conta, é o pai tentando fazer tudo e a mãe tentando fazer tudo também. É 100% dos dois lados, não 50 a 50. São os dois tentando dar o seu melhor, e contribuir para que a sua família seja feliz. Sei que muita gente tem um pé atrás com esses conceitos, mas se você tem um pé atrás, eu sugiro que você troque de nome, não use feminismo, não fale de empoderamento, só fale de respeito entre as pessoas e da necessidade de discutir uma forma de a gente ser feliz juntos.

Na tua opinião, qual é a maior dificuldade que os pais modernos enfrentam com o turbilhão de informações e a tecnologia?

Acho que a maior dificuldade do pai moderno é a falta de tempo, a dificuldade de equilibrar a família e o trabalho e a necessidade de terceirizar a educação dos filhos para a escola e para a tecnologia. O tempo todo você leva o seu filho pro colégio com a confiança de que o colégio vá educar o seu filho, e quando não educa você xinga o colégio, e dentro de casa, em vez de você passar tempo com o seu filho, você não tem tempo, você está trabalhando, então coloca o seu filho na frente da televisão, do netflix, do youtube. Isso não é ser pai, isso é ser tio. Não é ser mentor, cuidador, participativo. É ser uma espécie de babá que acredita que os outros elementos têm de educar o seu filho, sendo que a criança aprende pelo exemplo, a criança vai aprender pelo que você fala e, principalmente, pelo que você faz. E a obrigação de educar é sua, e não da escola. O que a criança descobre na escola é uma construção social de relacionamento, de respeito ao próximo e ao mundo. Agora, é você que tem de educar o seu filho a ser mais humano, mais gentil e mais curioso em relação ao conhecimento que está tão disponível hoje.

Tu escreves livros, recentemente produziste vídeos e agora ¿O papai é pop¿ virou uma história em quadrinhos. Qual a intenção em levar histórias a outras plataformas? 

Eu não esperava o sucesso do Papai é Pop, mas depois que o livro alcançou tantos números importantes em termos editoriais, e depois os vídeos, a fanpage, que hoje está alcançando 2 milhões de pessoas em todas as publicações, do Papai é Pop 2 junto com A mamãe é Rock, a gente percebe que é um vínculo de confiança, aprendizado e discussão. E a história em quadrinhos é mais uma tentativa de fazer com que um pai e um filho possam sentar juntos e ler uma boa história, se divertirem e, claro, se emocionarem e serem transformados pelas histórias. É uma chance de pais e filhos estarem mais próximos um do outro.

Qual foi o maior retorno que o teu trabalho te proporcionou? 

Todas as histórias me marcam muito, claro que algumas são mais fortes do que outras, maridos que tinham abandonado esposas voltaram para casa e passaram a ser participativos, pais que repensaram o abandono, e até algumas pessoas que pensaram em suicídio e foram tocadas pelos textos e desistiram da ideia, justamente por terem seus olhos abertos para a importância da família e da sua relação com os filhos. Então pessoas que iam tirar suas próprias vidas e deixar filhos e família sozinhos neste mundo repensaram essa decisão ao lerem os meus textos, e isso é muito tocante.

Quais são teus planos para o futuro? 

Meu, de verdade, meu plano pro futuro é que eu me torne obsoleto. Que ninguém mais me chame para palestras ou para escrever livros. Porque o assunto já tenha sido superado, ultrapassado. Porque o pai participativo já seja um padrão na sociedade. O meu sonho é que isso aconteça, e quando isso acontecer não vai mais ter papai pop, todo mundo vai ser papai pop, o papai pop vai ser o padrão. Essa é a minha esperança.

Agende-se

O quê: palestra O Papai é Pop.

Onde: UCS Teatro.

Quando: quarta, às 20h.

Quanto: R$ 40 (comunidade Rede Caminho do Saber) e R$ 70 (público geral).

HQ

O autor ainda está lançando seu próximo livro, O Papai é Pop em Quadrinhos (Belas Letras, 96págs., R$ 39,90), em que traz as famosas histórias para o universo das HQs.


 
 

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