Ciro Fabres: O dia mais frio do ano - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião19/07/2017 | 10h10

Ciro Fabres: O dia mais frio do ano

Não tem desculpa não se engajar, mesmo que muitos não queiram nem conversa

Foi ontem ou anteontem, não importa. O dia mais frio do ano. Ele entra para a história climática, meteorológica, de uma cidade, de uma região. Todo ano tem seu dia mais frio, que se percebe na pele, aquele em que as imagens apenas atestam a sensação. Há fotos de geadas enormes, de campos cobertos de branco, de galhos congelados, de chaminés fumegantes, de gente enrolada em agasalhos dos pés à cabeça, com uma fresta apenas para o nariz e os olhos. Este ano, o dia mais frio foi agora. Foi incontestável. Com certa frustração, não veio a neve. Mas não importa. Por ventura, ontem teve sol para aquecer.

Dificilmente haverá outro dia igual este ano. É improvável. Foi dureza, especialmente para quem é castigado pelos rigores do frio. Gente que mora na rua não falta, gente com pouco agasalho, com frestas nas paredes de casa, com doenças respiratórias. Há campo fértil para a solidariedade, mas não apenas isso: há campo fértil também para a promoção de condições mais justas, dignas e igualitárias de vida, tarefa que deve ter nosso engajamento nela. Não tem desculpa não se engajar, mesmo que muitos não queiram nem conversa. Tarefa que exige iniciativa, postura diante da vida, meter a mão na massa, inclusive na política. Apenas a solidariedade não transforma as condições da realidade. Remedia, pode aquecer e transformar corações, mas ainda não é tudo.

Ao mesmo tempo, o frio é o aconchego de casa, uma nesga de sol no ambiente, o fogo de chão ou o fogão à lenha na cozinha com a família, a sopa e o sopão, o pinhão, um cálice de vinho ou o café quente, o chimarrão, a bergamota no sol. É o sol que beija a pele. São as luvas, as toucas, as mantas, os cachecóis e o agasalho doado. É o cuecão por baixo da roupa, a dificuldade quase irremovível de arrastar as cobertas para se levantar. Ainda mais no meio da madrugada, quando é preciso ir ao banheiro. É ficar pelado para tomar banho, é ter de sair do banho. É o pé que gela durante o dia. O frio é a memória da infância, os dias gelados em outros tempos, em outras fases da vida, a fumacinha que sai pela boca.

O frio está no nosso DNA, porque aqui nascemos ou vivemos, queiramos ou não, gostemos ou não. O frio nos define e traduz. Faz parte, e faz parte central de nossas vidas. O frio imprime marcas e lembranças. É a nossa vivência, rica porque é única. Agora foi o dia mais frio do ano. Será lembrado. Ficou na história. Logo aí, vêm os dias mais quentes.

Assim é a vida. Vida que segue.

 

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