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Opinião20/07/2017 | 06h01Atualizada em 20/07/2017 | 06h02

André Costantin: Max, canis lupus

Eu fui adestrado desde criança para ser um exemplar cão de guarda

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Quando cheguei nessa casa, num bairro de Farroupilha, trataram de reforçar as grades da frente, que dão para a calçada. Os vãos dos gradis receberam telas de arame galvanizado, de uma malha fina, como um viveiro de passarinhos urbanos. Dois mundos se formavam definitivamente na minha vida: o universo de dentro das grades passou a ser a obsessão dos meus olhos negros.Sou Max, um pastor belga, caramelo com extremidades negras – tal a pelagem de um baio cabos negros.

Aliás, os cavalos e nós, cães, somos os animais mais humanos e loucos da Terra. Somos tão íntimos do homem, que participamos das suas loucuras e obsessões nas guerras, nas corridas, no amor e no ódio. Erasmo de Rotterdam, em Elogio da Loucura, foi quem notou isso. Nas batalhas, o cavalo toma parte do fervor do seu cavaleiro, não o abandona e não recua, tomba com ele muitas vezes; nas caçadas, quer vingar-se de seus inimigos, o leão ou um veado. Nós, cães, somos assim também.

Não se surpreenda, leitor, com a minha linguagem de cão, tão natural aos seus sentidos. Somos parceiros desde que você ergueu-se como homo sapiens. Caminhamos juntos até que você homem chegou ao estágio de um Erasmo; eu, guardando a sua caverna e a sua aldeia das feras, fui deixando a alma de lobo e tornei-me o canis lupus familiaris, do latim, seu vulgo cão doméstico. Foi nesse tempo que uma loba generosa, minha ancestral, deu de mamar para os gêmeos Rômulo e Remo, abandonados às margens do Rio Tibre – para depois Rômulo fundar a cidade de Roma. Conheço a sua alma, homens e mulheres, como ninguém mais. Talvez nem o vosso deus.

Eu, Max, fui adestrado desde criança para ser um exemplar cão de guarda. Devo ter tido uma atitude ou gesto mais forte nas brincadeiras com meus irmãos, ainda no ninho. Então meu treinador me elegeu para ser Max, guerreiro, sentinela. Meus donos são pessoas simples, doces até, sabiás exilados na cidade. A mulher é muito frágil, guarda o trauma de um assalto à casa, quando o invasor bateu nela com uma arma. Foi por isso que eu cheguei aqui.

Saio à rua com o homem, vou preso a uma guia curta; cuido para não puxá-lo com força. Uso uma focinheira de couro que bota medo nas pessoas; devo parecer um monstro com sangue nos olhos. Às vezes, em sonho, volto a ser lobo: estou numa toca sem arames, perto da casa primitiva. Fico atento aos sinais dos ares, premonizando ursos, leões, mamutes. Mas cuido principalmente da ameaça de outros seres humanos. Volto ao lobo para proteger o homem dele mesmo.

 
 

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