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Opinião13/07/2017 | 06h30Atualizada em 13/07/2017 | 06h30

André Costantin: A Mesa do Imperador

A guerra agora é outra, em fronteiras intestinas

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Vamos, vem comigo, sentemos à Mesa do Imperador. No caminho que sobe do Jardim Botânico para a Floresta da Tijuca, no Alto da Boa Vista. Que paisagem! A nossos pés, a exuberância tropical; no grande entorno, ares e sons metálicos do Rio de Janeiro.

A mesa de granito, secular, sóbria, solene e... desconsagrada. Dom Pedro II está ali, cofiando a barba do seu morrente império tropical. Na republiqueta do futuro, sua mesa ritual virou um banco para o lanche dos passantes, onde os turistas riem banalidades e fotografias, assentam sem pudor suas pesadas "anáguas resvalonas" — para usar palavras do velho Blau Nunes, o vaqueano, que num dos clássicos contos gauchescos, de Simões Lopes Neto, foi mensageiro do imperador, quando da viagem de Pedro II ao Rio Grande do Sul, na Guerra do Paraguai.

Levantou-se o cerco paraguaio de Uruguaiana. A guerra agora é outra, em fronteiras intestinas. Está logo ali, nas trincheiras da cidade maravilhosa. A capital emocional da nação foi sitiada pela própria nação do eterno porvir. Um carro da polícia sobe o asfalto da floresta, com pontas de fuzis pelas janelas.

Dom Pedro levanta, caminha por entre os muros bem talhados do lugar. Minha filha pequena abre um sanduíche. Na outra ponta da mesa, novos turistas fazem poses e obscenas caras de Facebook sobre o tampo de pedra. Talvez em qualquer outro lugar do mundo onde tenha existido uma mesa assim, obra de um imperador, tais gestos fossem reprimidos por uma consciência interior.

Nascemos e crescemos pisoteando nossa memória. Por que em tantos anos de catequismo escolar nunca nos contaram que a Floresta da Tijuca, uma grande floresta urbana do planeta, foi mandada cultivar pelo imperador, onde antes era terra devassada? Nunca nos disseram do apreço de Dom Pedro II pela arte, pela fotografia; ou de suas viagens pelo mundo. Ao invés disso, nossas pobres mentes sedimentaram gritos do Ipiranga, do outro Dom Pedro, o primeiro, garganteados por gerações de Tarcísios Meira — entre outras camadas de proezas novelescas da pátria, agravadas mais ao sul pelas nossas façanhas servindo de modelo à toda Terra.

Vejo-me num espelho, à Mesa do Imperador: eu sou filho, neto e bisneto, de uma ignorância histórica. Chega um ciclista paramentado e coloca a bike sobre a mesa, como um troféu. Levanto e vou sondar as escadarias ao fundo do sítio histórico. Começa um cheiro de mijo secular em volta, talvez logo ali um assalto. Vejo as costas do imperador, pesadas, sumindo na floresta. Vai embora, para o seu exílio final.

 
 

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