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Filosofia23/06/2017 | 16h59Atualizada em 23/06/2017 | 18h36

Pensadores discutem o cansaço da sociedade contemporânea em Caxias do Sul

Dois encontros em Caxias nos próximos dias irão abordar uma geração que vive as consequências de querer tudo ao mesmo tempo 

Pensadores discutem o cansaço da sociedade contemporânea em Caxias do Sul Charles Segat/
Pressionados a desempenhar cada vez mais, a geração atual esbarra no cansaço de tentar ser multitarefas Foto: Charles Segat

Além de ritmo, melodia e harmonia, a música é feita também de pausa, um de seus elementos mais importantes. Quando os instrumentos param, por vezes dando a falsa noção de que a canção chegou ao fim, podem tanto voltar para uma nova passagem como para repetir a estrutura anterior. Na pausa, a música respira fundo. Na vida cotidiana, especialmente nos grandes centros, pensadores têm alertado que o valor da pausa precisa ser redescoberto. 

Autor de um dos livros que mais inspira reflexões, debates e palestras pelo mundo, o sul-coreano Byung-Chul Han decreta que vivemos na sociedade do cansaço, também apresentada pelo filósofo como sociedade do desempenho. É a primeira denominação, contudo, que dá nome a um dos dois encontros que vão ocorrer em Caxias nos próximos dias, onde a legitimidade do ritmo alucinante em que vivemos é posta em xeque.

A Sociedade do Cansaço ou O Paradoxo da Hipermodernidade é o tema da Ciranda do Pensamento que terá como painelista, na próxima terça-feira, o historiador e pesquisador caxiense Marcelo Caon, com convidados. No centro das questões trazidas à tona por Byung-Chul Han, articuladas com argumentos de pensadores como Michel Foucault, Hannah Arendt e Walter Benjamin, está a frustração da nossa geração por ter se tornado escrava da falsa ideia de liberdade proporcionada pelo mundo conectado e permeada pelo discurso "yes, we can" (sim, nós podemos) — herança do marketing da campanha presidencial de Barack Obama. Para o sul-coreano, vivemos a saturação dos discursos motivacionais, que nos leva a crer que podemos sempre produzir mais.

O nefasto resultado da ditadura do empreendedorismo, aponta o pensador asiático, é uma sociedade que não padece mais por vírus ou bactérias, mas sim por doenças neuronais como transtornos de personalidade, ansiedade e depressão provocadas pelo excesso de cobrança por desempenho e pelas limitações — inclusive neurológicas — com as quais somos confrontados ao tentarmos ser multitarefas. Mera ilusão da sociedade frustrada, que ao negar qualquer possibilidade de tédio pelo empoderamento dos manuais de autoajuda, escravizou-se no individualismo hiperativo.

Convencido a se superar o tempo todo, o indivíduo da sociedade do desempenho molda a vida em torno da performance e por isso cultua a tecnologia. Quer o processador mais rápido para produzir melhor, busca a academia para ter o corpo perfeito, exibe-se nas redes sociais para ser mais amado. Quer produzir ao máximo o tempo todo, porque foi convencido de que tudo é possível. O parâmetro de concorrência é sempre o próprio indivíduo de ontem, hoje insuficiente e com a sensação diária de estar ficando pra trás, cansado de obedecer à ideia que faz de si mesmo.

Ao mesmo tempo em que é necessário indagar para onde caminhamos com essa pressa que não nos faz ir além, também é preciso refletir: que gerações iremos formar? Essa questão será abordada em Caxias por Gabriel Carneiro Costa, especialista em comportamento e um dos difusores no Brasil do movimento Pais Sem Pressa, adaptação do conceito norte-americano slow parenting, que defende a desaceleração do ritmo da criação dos filhos, hoje formados para serem brilhantes desde o dia em que começam a engatinhar. Para Carneiro, a educação desacelerada pode legar uma geração menos exigente consigo mesma e mais tolerante.

"Felicidade e medo são questões internas"

Marcelo Caon Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Historiador atento a questões de preservação de patrimônio nos espaços urbanos — tema do doutorado concluído no ano passado —, Marcelo Caon tem sido instigado pelos estudos de hipermodernidade do filósofo francês Gilles Lipovestky, um dos pilares teóricos para desenvolver sua tese na PUC-RS. Ao articular os conceitos do francês com outras leituras teóricas e pesquisas em música e literatura, encontrou em Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, muitos dos conceitos que permeavam suas inquietações, principalmente sobre o mundo do trabalho. Em resumo: como os avanços tecnológicos escravizaram o homem, ao invés de libertá-lo? Ao ser convidado pela organização do Ciranda do Pensamento para ministrar um painel, sugeriu o tema "Sociedade do cansaço ou o paradoxo da hipermodernidade", a ser apresentado e debatido com convidados na próxima terça-feira. Abaixo, confira uma entrevista com Caon sobre a sociedade do cansaço, do desempenho e da performance.

Pioneiro: Como fomo virar escravos da nossa própria ideia de liberdade?Marcelo Caon: A queda de um poder dominador não significa a ausência de coação. Ela continua existindo enquanto excesso de positividade. Você precisa fazer mais, precisa chegar a determinado lugar, tem de alcançar isso ou aquilo. Os infartos não acontecem mais pela negatividade, mas pelo excesso de discurso de positividade. Enquanto para resolver um problema do corpo toma-se remédio, para resolver um problema social cria-se barreiras, e assim o que pensa e age diferente de mim passa a ser o perigoso. Os medos fazem parte deste excesso e ajudam a explicar tamanha adesão a discursos totalitaristas e preconceituosos.

Como fomos convencidos a aderir ao modo de vida que nos deixa doentes?
O discurso da modernidade, no final do século 19, dizia que, com a superação da sociedade estratificada por classes, era o momento de se libertar e progredir. Era uma corrente muito forte, que associava o progresso basicamente à inovação tecnológica. Mais de cem anos depois, voltou-se a repetir o discurso de que rumamos para o progresso, e que, para tal, temos que tomar determinado caminho. É a repetição do discurso religioso de que alcançaremos a salvação se trabalharmos a vida inteira, agora com uma máscara de cientificismo. A modernidade nos diz que, quanto mais trabalharmos, mais rápido o progresso chegará e nos fará mais felizes. Mas essa felicidade é sempre colocada num ponto futuro. E quando nosso projeto de capturar o futuro é frustrado, entramos em crise. Estimulados a sermos felizes o tempo todo, estamos sempre correndo atrás e não conseguimos mais parar para atividades contemplativas, que nos permitiriam ver que a felicidade não está lá fora, mas sim ao nosso redor.

Estamos cada vez mais egoístas na busca do progresso?
É o "meu progresso", a "minha felicidade", mas no fundo todos querem o totalitarismo do igual. Todo mundo quer ter a mesma coisa, mas quando todos têm, perde a graça. A felicidade é construída em cima da relação com a felicidade dos outros não terem o que eu tenho. Se todo mundo tiver o mesmo carro que eu, será que eu vou ser feliz? O tempo todo as pessoas estão se preocupando em bloquear o outro para se proteger dos seus medos, mas também procuram o outro para legitimar a sua felicidade. Sendo que tanto a felicidade quanto o medo são questões internas.

O cansaço surge por que a felicidade que nos vendem é inalcançável?
A gente adere ao discurso da modernidade com uma ideia de progresso contínuo e futuro, de uma forma muito rápida e exaustiva. Quando surgem a publicidade e as vitrines, isso é importante porque as pessoas tenham acesso a isso pela primeira vez. Mas passam-se 100 anos e a gente está numa sociedade em que nada mais é novidade, explora-se a necessidade de manter a roda incessante da busca da felicidade pelo progresso e pelo consumo. E isso é cansativo porque é inalcançável. Esses discursos que promovem a possibilidade de tudo são, na verdade, recursos para lidar com o que nos falta e o que nos sobra. Criamos o discurso religioso para lidar com a necessidade de sermos salvos, o discurso do capitalismo para satisfazer a necessidade de ter, o socialismo para dizer que vamos ter uma sociedade igualitária. Mas são três possibilidades que não consideram o agora. O sacrifício do cristão na idade média não é diferente do que aquele que alguém faz no trabalho hoje, produzindo em excesso.

A tecnologia aumentou nossa pressa?
A tecnologia é muito importante. Não valeria a pena recuar no tempo para trazer de volta o passado, porque no passado faltavam muito mais coisas. A questão é olhar para o que foi construído, mas não podemos fazer isso correndo. É preciso dar tempo para o vazio,. E não se pode fazer isso na sociedade em que você está sendo bombardeado pelo discurso positivo do trabalho, ou cansado. A pessoa cansada apenas repete os mesmo movimentos.

O quê: Ciranda do Pensamento - Sociedade do Cansaço
Quando: Terça (27) das 19h30min às 22h30min
Onde: Centro de Cultura Ordovás - sala de cinema Ulysses Geremia (Rua Luiz Antunes, 312, bairro Panazzolo)
Quanto: Entrada gratuita 

¿A criança tem o direito a ser só criança¿

Gabriel Carneiro Costa Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Enquanto a sociedade do cansaço tem sido esmiuçada por pensadores das áreas da filosofia, sociologia e antropologia, um movimento percebido por psicólogos e educadores identificou que a carga de cobrança excessiva recai também sobre as crianças, superestimuladas a produzir o tempo todo. Como proposta de um modelo que vá na contramão desta urgência pelo sucesso, surgiu nos Estados Unidos o movimento slow parenting, que no Brasil recebeu o nome Pais Sem Pressa, que propõe a desaceleração da criação dos pequenos, respeitando a agenda da criança e reservando tempo para o ócio e, por que não, do tédio. É com a mente vazia que aflora a criatividade. Um dos principais difusores do Pais Sem Pressa no Brasil, o escritor e life coach Gabriel Carneiro Costa estará em Caxias do Sul no próximo sábado (1º de julho), para palestra no primeiro encontro do blog aMANHÊsendo, da jornalista Chris Finger. Confira entrevista com Gabriel.

O que defende o movimento Pais Sem Pressa?
Sé nós, adultos, estamos vivendo crises de ansiedade, pressão e cansaço por estarmos com agendas superlotadas, de alguma forma isso foi jogado para as crianças, que também estão lotadas de atividade. Faz esporte, faz teatro, faz tema de casa, faz inglês. Estamos criando mini-executivos, mini-estrelas, mas que têm o direito de ser apenas crianças. Muitas vezes projetamos nos filhos aquilo que são as nossas próprias frustrações de adultos, e queremos filhos perfeitos. A criança tem a vida toda para se desenvolver, não tem que estar preparada para o mundo aos cinco anos. Isso gera uma pressão exagerada e a necessidade de desacelerar proposta pelo Pais Sem Pressa.

Como se põe em prática o programa?
O principal é os pais estarem mais presentes. Esse, a gente diz, é o melhor presente para a criança. Mas é preciso alertar para a qualidade dessa presença, mais do que a quantidade. Não é deixar de lado a carreira, a vida pessoal ou de casal, mas aproveitar o momento com os filhos para estar com eles de fato, e não dividindo a atenção com o celular, com o notebook. E o segundo pilar é prestar a atenção se o filho não está com a agenda superlotada. Se ele está feliz ou triste por estar cumprindo com os seus compromissos, se não sente que faz as coisas pro obrigação. Permitir a ele um espaço de ócio, de não fazer nada. É o momento para ele desenvolver a criatividade. Se ele perguntar o que tem para brincar, dizer que não tem nada, que ele se vire e invente uma brincadeira. Isso é super importante.

Isso envolve a relação com outras crianças?
Sim, porque é uma decisão que precisa ser da família, se irá optar por desacelerar a criação do filho. E se o filho dessa família filho tiver como amigo o filho de uma família que for acelerada, vai fazer mal pra ele, porque ele vai comparar as suas atividades com as dos amigos.¿O fulaninho faz três esportes, eu só faço um¿. Preciso estimular que meu filho transite com famílias que eu perceba que não são tão aceleradas. Tenho um filho de cinco anos e ele tem amigos que dizem que quando crescerem querem trabalhar para ir para os Estados Unidos duas vezes por ano. Esses dias outro chegou com a mochila de uma marca comprada nos Estados Unidos, por isso que é bom trabalhar. Eu escuto uma frase dessas e penso `como assim, meu Deus do céu?¿

Há uma idade limite para a educação sob esse conceito?
Eu tenho 38 anos e adoraria que meu pai, de 63, chegasse para mim e me ajudasse a desacelerar, fazer as coisas mais devagar, dizer que não preciso provar nada. Sob essa perspectiva, não tem idade. Mas se for considerar a questão mais prática de ajustar as agendas, iria até os 12 anos, quando o pai ainda tem um controle maior da rotina do filho e é capaz de impor um certo ritmo.Quais as dificuldades que os pais enfrentam ao tentar essa desaceleração?São duas: a primeira é ter que mostrar que sou o pai perfeito, que é um vício difícil de largar mesmo sabendo que é nocivo. A segunda é conciliar as agendas pessoais com a dos filhos. O tempo disponível para passar com o filho fica cada vez mais curto. Eu não tenho uma resposta quando me pedem ajuda com isso, o que digo é que é necessário priorizar. Alguma coisa vai ter de ficar de lado. Para ficar mais com a família talvez precise abrir mão da academia, deixar o MBA para a frente...toda escolha tem uma renúncia, a questão é entender o que é mais importante.

Que benefício tu espera que a desaceleração traga às próximas gerações?
Espero que gere menos doenças emocionais. Temos muitas crises de ansiedade, crises do pânico, transtornos de humor, e espero que isso diminua. Também espero que tenhamos líderes melhores, seja nas empresas, nas comunidades ou mesmo líderes de família, capazes de impor menos pressão pela alta performance o tempo todo. Talvez lá na frente a gente tenha uma geração preocupada em oferecer mais qualidade de vida pra todos.

O quê: palestra Pais Sem Pressa, de Gabriel Carneiro Costa, no 1º aMANHÊsendo
Quando: 1º de julho (próximo sábado) das 11h às 17h
Onde: Grand Maison Festas e Eventos (Rua Vinte de Setembro, 405)
Quanto: o passaporte para todas as atividades do dia (recreação para crianças, palestra para gestantes, entre outras) custa R$ 100


 

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