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Opinião16/06/2017 | 16h03Atualizada em 16/06/2017 | 17h07

Nivaldo Pereira: Chico, artista plural

Esse geminiano explora como ninguém a capacidade de ser outros e de inverter as perspectivas de visão

Nivaldo Pereira: Chico, artista plural Charles Segat/
Foto: Charles Segat
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Ele fala várias línguas, lê muito, escreve, compõe, canta, toca, caminha todo dia e corre atrás de bola. Devemos render loas ao geminiano Chico Buarque, aniversariante do dia 19. Com seis planetas em Gêmeos, esse artista de múltiplas facetas há tempos vem alternando sua produção entre um novo disco e um novo livro. Feito filho de Mercúrio, tem na palavra seu dom maior. Ele mesmo canta: ¿Palavra minha, matéria, minha criatura, palavra¿. E deita e rola na linguagem, como quem brinca enquanto cria belezas. Vide as proparoxítonas de Construção: última, única, máquina, sólida, tráfego, sábado... Ou a musicalidade da aliteração em Pedro Pedreiro: ¿Pedro pedreiro penseiro esperando o trem¿. O que seria da cultura brasileira sem a inteligência de Chico?

Esse geminiano explora como ninguém a capacidade de ser outros e de inverter as perspectivas de visão. Em Cotidiano, há um homem falando da rotina: ¿Todo dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã¿. Em Sem Áçucar, há uma mulher: ¿Todo dia ele faz diferente / Não sei se ele volta da rua¿. Aliás, o dom de traduzir o universo feminino está entre os mais louvados atributos buarquianos. É coisa de Gêmeos esse imaginar real, esse fingir de verdade. 

Nos livros, o escritor adora o tema do duplo. Em Budapeste, por exemplo, há um jogo de identidades entre o autor falso e o verdadeiro, entre a língua portuguesa e a húngara. Na vida real, ele tem prática de trocar de persona. Para escapar da marcação da ditadura, não criou o pseudônimo Julinho da Adelaide, driblando os censores? 

Como geminiano, é o cronista sensível dos tipos que, à margem, veem a banda da vida passar: saltimbancos, pivetes, malandros, travestis, equilibristas, pedreiros, Ritas, Carolinas, morenas dos olhos d¿água, moças feias nas janelas e outros suburbanos corações. E é também a voz de esperança de que amanhã há de ser outro dia, a despeito das páginas infelizes da nossa história e das tenebrosas transações que subtraem nossa dignidade. Viva Chico Buarque!

 
 

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