Gilmar Marcílio: Meias verdades - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião02/06/2017 | 08h00Atualizada em 02/06/2017 | 08h40

Gilmar Marcílio: Meias verdades

"Dê graças a Deus se você tem ao seu lado quem não lhe impõe presença e atenção constantes"

Reza a lenda que quando nos relacionamos com alguém tudo o que queremos é que nos presenteiem com a verdade; por favor, a verdade. Desde que seja um derramamento amoroso, um dizer e redizer do quanto somos importantes e de como a felicidade dele ou dela depende infindavelmente de nós. De onde se conclui que desejamos tão somente confirmações, certezas. 

O tempo passa e insistimos numa transparência que pode ser letal para qualquer projeto afetivo. Parece estranho fazer a apologia dessa área nebulosa que fica entre o real e o fantasiado. Pois será preciso mentir para que tudo permaneça saudável? Nem tanto. Prefiro acreditar que se ocultarmos de nossos amores um pouco do que se passa conosco, tudo tende a andar melhor. Não dá para colocar tudo na mesa. Por exemplo, quem não gosta de olhar para uma pessoa bonita, quem não tem inofensivos segredos e quem, sobretudo, não deseja ficar sozinho em determinados momentos? 

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É difícil encontrar esse equilíbrio, mas faz bem afastar-se um pouco para sentir, logo adiante, o conforto de um abraço, a doçura de uma frase bordada em delicadezas. No dia a dia não conseguimos ser constantemente encantadores. Precisamos ter espaço para expressar nossas raivas, nossos rancores. Um pouco distantes, por favor, porque oscilamos entre sentimentos agradáveis e outros francamente nocivos.

O melhor antídoto para brigas e desentendimentos continua sendo o bom humor. Aprender a relativizar, colocando em perspectiva o que por ora nos assusta e pode ser motivo de muita dor. Saber que a falha é um pertencimento humano. Que mesmo dando o nosso melhor muitas vezes somos chatos, cansativos. Quando paramos de idealizar quem está ao nosso lado passamos a ver leveza onde antes colocamos âncoras. 

Depois de vários anos de convivência, é natural que queiramos nos esconder um pouco, resgatando uma intimidade pessoal, que o casamento normalmente não abriga. Digo isso com a convicção de que é uma dádiva atravessar a existência ao lado de alguém que, acima de tudo, admiramos. O resto pode até ir se tornando sépia, mas há que se continuar olhando com encantamento, querendo conversar horas a fio. Que alegria termos nos encontrado, basta esta certeza. Dê graças a Deus se você tem ao seu lado quem não lhe impõe presença e atenção constantes. Que acha aceitável o fato de você querer se divertir longe do perímetro doméstico. Vele por isso. Pode ser o seu maior patrimônio emocional.

Tenho procurado agradecer todos os dias por poder repousar minhas mãos dentro de outras mãos. Mas aprendi a deixá-las descansando no vazio em intervalos regulares. É assim que continuo me entusiasmando com a presença desse amor. Não blefo. Apenas não revelo tudo.

 
 

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