Gilmar Marcílio: Clima interior - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião16/06/2017 | 08h00Atualizada em 16/06/2017 | 08h00

Gilmar Marcílio: Clima interior

Não tenho urgência em encontrar a estabilidade definitiva

Hoje a manhã acordou nublada. Ontem choveu sem parar. Parece que no sábado vai ter sol, mas depois virá uma onda de frio intenso. E não dá para esquecer os três dias ininterruptos de neblina da semana passada. Se você se arrepia ao ler estas frases é porque o seu tempo interior costuma acompanhar o que acontece do lado de fora. Esta instabilidade normalmente não é boa para a nossa saúde psíquica. Penso nisso ao lembrar o quanto nos incomodamos com as variações climáticas, como se através de meia dúzia de frases de descontentamento pudéssemos mudar as condições meteorológicas.

Ser estoico e aprender a tolerar costuma ser a maneira menos dolorida de passar por alguns pequenos e inofensivos sustos, quais sejam, sentir falta de um agasalho ou receber no rosto alguns pingos de chuva. Não consigo ficar totalmente imune, mas sou afetado de maneira quase imperceptível ao ser forçado a viver todas as estações em vinte e quatro horas. Se estou bem, se há reserva de alegria e serenidade em mim, ora, tratarei de me adaptar e pronto. Pequenos desconfortos ajudam a fortalecer nossa alma, deixando-a pronta para enfrentar vicissitudes de maior calibre. Se reclamar tiver uma função terapêutica, tudo certo. Só não se esqueça que está desperdiçando energia que poderia ser destinada para coisas mais úteis.

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É impressionante como se pode passar bem um dia gélido ou de temporal. Tudo se torna mais íntimo, como se o mundo se encolhesse para nos abraçar. As pessoas tendem a ficar mais introspectivas e, se calhar, podem até abrir um livro de poesia. Provavelmente terá menos vontade de sair de casa e aproveitará para arrumar gavetas ou conversar sem pressa com seu filho. E uma sensação agradável de que nada é tão urgente assim provavelmente tomará conta de todo o seu ser. Sem contar que esperará com uma doce expectativa pela volta do sol, da luz. 

Eu declinaria de um convite para viver numa cidade com constantes vinte e cinco graus. Gosto da surpresa. De deitar embalado pelas estrelas e acordar com o barulho da água lavando o telhado. Ou seja, quando se está bem, tudo parece um presente e movimentar o corpo uma felicidade que a linguagem não alcança. Assim são as crianças, que sabem se divertir com tudo. Assim deveríamos ser nós, gratos por passear entre as horas plenos de consciência, em busca do que nos fortalece. Altercações não resolvem nada. Só desviam as forças do que é vital. Procuro aceitar sem fazer muito drama, porque acredito que tudo se equilibra e a insatisfação é um descuido passageiro.

Sou fácil de contentar. Frio, calor, umidade, oscilações de temperatura em curto espaço de tempo. Vou para a rua e me sinto vivo. Respiro profundamente, agradecendo. Não tenho urgência em encontrar a estabilidade definitiva. Não sonho viver em outro lugar. Aqui ou acolá submeto-me aos caprichos da natureza. É assim que existo: olhando para dentro ou para fora de mim com igual prazer.

 
 

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