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Literatura12/06/2017 | 10h32Atualizada em 12/06/2017 | 10h35

"Crianças querem uma boa história", diz escritor  Ignacio Martínez

Autor de mais de 150 livros, uruguaio esteve em Caxias do Sul recentemente, para oficinas e Maratona de Contação de Histórias

"Crianças querem uma boa história", diz escritor  Ignacio Martínez Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Foco principal da obra de Martínez são as crianças e os adolescentes, e ele também possui textos para o teatro Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS
Maristela Scheuer Deves
Maristela Scheuer Deves

maristela.deves@pioneiro.com

Um dos grandes nomes da literatura infantil e infanto-juvenil no Uruguai, o escritor Ignacio Martínez, 61 anos, não tem dúvidas: as crianças, não importa de que país sejam, gostam de boas histórias. Isso pode ser aproveitado, inclusive, em sala de aula, tornando-as protagonistas de sua própria educação por meio da abordagem lúdica dos conteúdos.

Martínez, que esteve recentemente em Caxias do Sul para participar da 9ª Maratona de Contação de Histórias e para ministrar um curso sobre teatro na educação, sabe do que fala — afinal, ele é autor de mais de uma centena de livros para crianças e jovens (o de número 103, Konstantin y el Encuentro Sinfónico, foi lançado em maio), além de 41 obras de teatro e 14 livros para adultos.

— Mais alguns poemas espalhados por aí — brinca.

Com uma carreira de mais de 40 anos, Martínez tem também uma ampla convivência com seu público, graças a visitas a escolas e eventos literários por toda a América Latina e também fora dela, como na Espanha e na Suécia. A Caxias, foi a quarta visita. Diz que aprende muito com esse contato, e defende:

— Crianças têm uma imaginação absolutamente fantástica.

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O escritor também atuou como editor de várias revistas, e guarda um carinho especial pela El Tomate Verde, uma revista ambientalista não apenas voltada ao público infantil, mas feita por crianças.

— Eu fui o redator responsável durante dez anos, entre 2000 e 2010. As crianças, meninos de sete, oito anos, o mais velho tinha 12, escreviam histórias, adivinhações, faziam as ilustrações, as entrevistas. Entrevistaram os prefeitos de Buenos Aires e de Montevidéu, autoridades da cultura, muita gente — recorda.

Durante a estada na cidade, Martínez conversou com o Pioneiro. Confira trechos da entrevista:

A maior parte da sua obra é para crianças e adolescentes. Por que resolveu escrever para esse público?
Por três razões. A primeira é que eu me sinto melhor, me sinto mais cômodo. A segunda é porque às vezes eu penso que escrever para adultos, agora, é uma perda de tempo; eu acho que temos de trabalhar para nossos jovens, nossos meninos, porque o mundo está numa situação tão delicada, tão frágil, que nós temos de procurar que as novas gerações sejam melhores que a nossa. Então, é uma atitude ideológica, política, também. Em terceiro, porque eu aprendo muito das crianças, eu acho que eles são os grandes professores. Uma menino disse uma vez, "Ignacio, você é maravilhoso porque está vivo" (risadas). Só uma criança pode dizer isso, é fantástico. E uma menina me disse "Nós consumismo, e consumimos, e consumimos, e isso está a consumir-nos". É (como) Sócrates, Aristóteles, Platão. E nós, adultos, não nos damos conta dessa verdade. É o último relógio, o último celular...

Nas suas andanças, o que o senhor nota de diferente e de semelhante entre os leitores brasileiros, uruguaios e de outros lugares?
O que tem de diferente é obviamente o idioma. Para mim, é uma trava, uma dificuldade que tenho de enfrentar (quando está no Brasil). Mas as crianças, elas são todas iguais, elas sorriem, elas esperam uma história bonita, uma emoção. Por outro lado, para mim, vir ao Brasil é como estar em casa. Somos todos latino-americanos, muito unidos pelos mesmos problemas, as mesmas dificuldades, os mesmos sonhos. Então me sinto absolutamente querido aqui. Porém, reconheço que vocês entendem o espanhol muito melhor do que eu o português...

O senhor falou que as crianças do mundo inteiro gostam de histórias. Quando elas crescem, isso muda?
A vida, o sistema de vida que estamos vivendo agora, nos apresenta novas atrações. Para quê? Para tornar-nos seres estúpidos, seres domináveis, seres não pensantes, para consumirmos. As crianças, todavia, têm a capacidade de sonharem com coisas que não são materiais; os adultos sonham com o mais moderno carro, a mais moderna televisão, o mais moderno móvel.

E os jovens de agora podem ser diferentes quando crescerem?
Eu acredito que sim. Um jovem que lê é um adulto que lê. Um menino que vai ao teatro é um adulto que gosta de teatro. Um menino que só joga futebol é um adulto que só assiste futebol. Um menino que tem armas em casa é um adulto que depois gosta de armas. Eu fui uma criança que teve livros por todos os lados, e acho que se as crianças têm histórias, livros, arte, teatro, música, vão ser mais livres, mais críticos, mais autocrítico, mais solidário. Essas são as grandes tarefas que temos, a busca de um ser humano mais crítico, mais autocrítico, criativo, solidário, trabalhador, cooperativo. Este é um mundo absolutamente individualista, então essa é a via que temos de transitar.

O crescente uso de tecnologia pelos jovens mudou o modo de ler e de escrever livros?
Não. Para mim, a tecnologia não é um problema. Eu quero que as crianças e jovens leiam, se eles leem em papel ou numa tela, não é relevante. O livro também sofreu muitas mudanças ao longo da história, o papel tem 500 anos somente. Antes, foram 10 mil anos de pedra, argila, couro... Algumas coisas mudaram, mas veja meu mais recente livro: fala de um menino que viveu em 1782; é uma história antiga, mas absolutamente atual. Uma personagem é uma moça que é música, e o outro um menino que tem um problema, não pode ouvir, mas pode reger a orquestra. No final, a história vem para o século 21. 

Há temas que não devem ser trabalhados em obras para crianças e adolescentes?
Não. Eu escrevo sobre todos os temas, todos os temas são possíveis. Tenho um livro (Una vez en los Andes...) sobre um avião que caiu nos Andes em 1972, para meninos. Um tema sumamente difícil. Como eu explico que eles tiveram de comer seres humanos? (lê:) "Desde su quietud, esse sítio final para os que já não estavam parecia ser la continuidad de la vida para os que permaneciam en la avión caído". A morte de um é a vida dos outros. Muitas crianças me perguntam, "mas eles comeram seres humanos?" E eu digo, sim, como acontece todos os dias. Sim, quando eu recebo sangue de um outro, ou uma doação de órgãos, é mais ou menos parecido: o corpo de um salvando o de outro. Então, é uma perspectiva diferente, não macabra. É o jeito como se aborda o tema, como em todas as coisas.

Quais foram suas primeiras leituras?
Na minha casa havia muitos livros de um autor muito importante, Horacio Quiroga, do Uruguai. Muitos meninos ainda o leem. Assim como livros que eu escrevi há 30 anos continuam agora bestsellers, há muitas crianças que querem ler os livros que leram seus pais, suas mães. Então, o importante são os temas, a qualidade, a autenticidade da escrita, o respeito às crianças, saber que elas podem ler por trás das palavras. As palavras têm alma, e as crianças veem as almas das palavras. Quando você fala com elas, elas sabem se você está falando com os sentimentos, com vitalidade, com realidade, com carinho, ou não.

Como o senhor avalia a importância de eventos como a Maratona de Contação de Histórias?
É um recurso a mais, aponta uma direção. Não resolve todos os problemas, mas ajuda a resolver. Porque agora as crianças vão falar das histórias, eles saíram da escola, vieram até aqui (o Teatro Pedro Parenti) ouvir histórias, se deslumbraram com elas. Isso dá novos elementos, mas depois a escola deve continuar com essas atividades. Infelizmente, muitas vezes isso não ocorre. Mas tem de continuar. Com quê? Com livros, com contação de histórias lá na escola, os professores contando, as crianças mesmo, contando histórias de sua vida direta, da escola, da família, da cidade, de tudo.

O senhor veio a Caxias falar do uso do teatro na educação. Qual a importância do teatro na sala de aula?
Um professor meu me disse uma vez: "o teatro não é a vida, mas se parece bastante". Então eu concluo que, se parece, ele pode colocar uma distância para olhá-la, analisá-la, e superá-la. Imagina uma obra de teatro sobre a matemática, sobre as ciências cósmicas, sobre a linguagem... Seriam experiências formidáveis, muito mais do que o professor lá na frente "blablablablá". Porque ademais, com o teatro, a criança seria protagonista de sua própria educação. Da outra maneira, ele é só um espectador, que está ali para ouvir, ou não. Depois da prova, nunca mais lembra de nada. Não lembra porque não sentiu, não atuou, não trabalhou para o conhecimento. Então, o teatro é importante também nas matérias curriculares, na vida cotidiana da escola, e não somente como uma atividade especial de entretenimento. Com música, com poesia, com histórias, com teatro, com dança. Eu não sei como pode fazer para dançar a Lei de Newton, mas não importa: vamos encontrar uma forma de trabalhar, vamos pintar a independência do Brasil, Tiradentes. Buscar outros enfoques.

 
 

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