Ciro Fabres: Tempos estranhos - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião14/06/2017 | 11h18Atualizada em 14/06/2017 | 11h29

Ciro Fabres: Tempos estranhos

Quando o assunto é barbárie, não paramos de "evoluir"

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, o STF, tem reiterado já faz algum tempo uma expressão para definir nossos dias.

— Vivemos tempos estranhos — tem dito, sempre que pode.

Em sua última reiteração, agora em maio, pontuou um acréscimo a essa expressão que já o caracteriza:

 — São tempos muito estranhos, geradores de grande perplexidade.

O pior é que perplexidade quase não há, ou há muito pouca. Marco Aurélio faz referência ao cenário jurídico-político do país, que há um bom tempo anda de ponta-cabeça. Tempos onde a autoridade pública perdeu descaradamente a vergonha, onde não há constrangimentos nem disfarces, onde nada inibe as negociatas, nem mesmo a ação sistemática e permanente da Polícia Federal. Isso é assombroso: a Polícia Federal nas ruas, quase todo dia, e as espertezas prosseguem sem temor. São tempos onde fraudes — para não falar golpes e reacender uma discussão antiga — são aplicadas por todo o lado, inclusive contra a carne e o leitinho das crianças.

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No âmbito jurídico, são tempos estranhos esses, em que provas já não são mais tão necessárias, em que uma delação é negociada em troca da liberdade e do ajuste do conteúdo do que vai ser delatado. Delação multipremiada. Tempos em que uma delação pura e simples basta para a execração pública, sem que haja necessidade de comprovação daquilo que foi dito. Tantas vezes, a evidência do que foi delatado é visível e tem provas, mas em outras pode não ser. E sempre precisará do outro lado para a garantia da ampla defesa. Mas, nesses tempos estranhos, há um rolo compressor que pode suprimir garantias em nome do combate à corrupção. O motivo é nobre, mas tem de ser sem atropelos. Motivos para perplexidade há, como diz Marco Aurélio, mas perplexidade há muito pouca.

Os tempos estranhos do ministro se esparramam pela realidade inteira. O crime organizado tem produzido decapitações em série na Grande Porto Alegre. Isso mesmo, degolas no Século 21. Degolas como havia há dois séculos. O prefeito Dória tem promovido um processo de higienização na chamada cracolândia, em São Paulo. Aliás, a cracolândia por si é reveladora dos tempos degradantes a que chegamos. E agora, esta aberração suprema: dois tatuadores imprimiram na testa de um adolescente a inscrição "Eu sou ladrão e vacilão", segundo eles, como forma de punição ao suposto furto de uma bicicleta quebrada. 

Quando o assunto é barbárie, não paramos de "evoluir". Ainda vamos longe. E tempos mais estranhos, por fim: muita gente gosta e aplaude. Tempos modernos, é o que muitos dizem, extasiados com a modernidade. Mas o ministro Marco Aurélio tem toda razão: são tempos estranhos. Que deveriam gerar perplexidade e inconformismo. Mas não geram.

 
 

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