Ciro Fabres: Se cansa porque quer  - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião28/06/2017 | 11h00Atualizada em 28/06/2017 | 11h00

Ciro Fabres: Se cansa porque quer 

Em breve, diremos: nossos dias eram assim

Entre as melhores coisas da série Os Dias Eram Assim, da Globo, ao lado do repertório musical impecável que nos surpreende e nos arrebata para momentos especiais de cada um de nós, é que, ali naqueles enquadramentos todos, não há celulares. Somos transportados para um tempo em que o celular não era necessário, ou, dizendo de outra forma, um tempo em que seguíamos em frente sem a existência dele a atormentar. Você mergulha em um cenário e em outra época e tem a certeza: dali não vai brotar nenhum celular. É tranquilizador. A vida seguia seu curso, ainda que pouco ou nada democrático, mas a reação se estabelecida com as ferramentas da época, a organização e a voz das ruas. Os dias eram assim: nenhum celular, nenhum smartphone. Por minutos, você fica a salvo deles. Um bálsamo.

É claro que o celular é necessário e essencial. Seria muito mais difícil exercer todos os controles antidemocráticos típicos de uma ditadura, por exemplo, se houvesse a tecnologia e esse aparelho que mais a simboliza. Eles desmontariam versões oficiais, dificultariam torturas e salvariam vidas, para encurtar a história. Mas o preço cobrado pelo advento do celular tem sido alto demais. Permitimos que assim fosse.

Esta semana, uma programação cultural na cidade debatia sobre a sociedade do cansaço. Ora, a sociedade se cansa porque quer, ou porque deixou que assim seja, o que dá na mesma. Entrega sua disponibilidade o tempo todo, no trânsito, no banho, na cama, acelera etapas e processos, acumula tarefas, atropela diálogos, e o celular tem participação central nisso. Deixamos que tenha.

Claro, a culpa não é do celular, é do uso que fazemos dele. O celular, por si, é inocente, e tem muito a acrescentar para melhorar a realidade. Mas optamos por caminhos tortuosos. Vejamos o caso do ator Fábio Assunção. Minutos depois do episódio, o vídeo com a performance do ator já cortava os céus do país inteiro. Isto é, a plataforma tecnológica dos smartphones e redes sociais dando suporte para a falta de compaixão. O preço é alto demais. Ali havia uma pessoa a ser ajudada, independentemente de ser quem fosse. Essa postura é divisória na humanidade. Você escolhe ajudar por vocação e humanidade, ou você escolhe expor, achincalhar, execrar. E o celular, no caso, foi multiplicador da pior exposição, quando havia alguém que precisava ser ajudado. Tem sido assim.

O celular nos destampa e nos cansa. Em outros tempos, provavelmente não houvesse o que nos destampasse tanto, e de forma tão sincera. Em breve, diremos: nossos dias eram assim. E tem mais: a trilha sonora não nos recomenda.

 

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