André Costantin: O dente do tubarão - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião22/06/2017 | 08h00Atualizada em 22/06/2017 | 08h00

André Costantin: O dente do tubarão

"Volto velho, ingênuo, tão raulseixista como antes"

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Volto a este espaço do Pioneiro depois de muitos anos. Volto ao mistério do leitor. As palavras, uma vez escritas, encomendam-se para o limbo, mortas, almas vagantes. O leitor poderá ser o Deus redentor dessas palavras. Mas Ele, o leitor, não existe ainda; não se sabe quando como onde e se de fato se completará.

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Na primeira temporada em que escrevi crônicas para o jornal, dividi a página com Nivaldo Pereira, o mais caxiense dos baianos. Lá pelas tantas juntamos nossos textos e resultou um pequeno livro intitulado A serra e o mar — crônicas de portos e interiores. Sepultada aquela fase, exilei cinco exemplares, a modo arqueológico, num fundo de armário de livros no sótão da minha casa. E lá dormiram 15 anos, lacrados, escondendo a minha coletânea de ingenuidades.

Pois em uma noite, enquanto eu me ocupava das coisas da casa, minha filha, Clarice o nome, revirando as velharias do armário, encontrou um daqueles livros. Antes de colocá-lo discretamente na mochila do colégio, sondou: "pai, o que é isso; tu já escreveu um livro?". "Não exatamente", devo ter respondido. O fato é que ela levou o livro escondido para a casa da mãe dela, onde, no esconderijo do seu quarto, deve eventualmente ser uma leitora e analista da minha psicologia. O leitor é isso, uma incógnita, um mito, o acaso no sótão. A escrita, um vento. Clarice, "o filho que ainda não veio", como na música Gita, de Raul Seixas, seria minha leitora de um insondável futuro pretérito.

De volta ao mistério de escrever, ofereço talvez nova coleção de ingenuidades. Porque não posso escrever por passatempo ou distração. Contrario o manual da crônica leve e passageira. Escrevo para salvar o mundo, como profeta, como idiota, cérebro coração e fígado. O tempo passou em silêncio. Volto mais velho. Mastiguei a vida. Queimei ilusões, uma ilusão chamada Brasil, outra Tempo. Volto forasteiro à cidade: quando passo em frente ao capitel entrincheirado da rua Matteo Gianella, tornado oficialmente um minicampo de concentração, sinto que Caxias morreu aos poucos em mim. "Sinto-me velho e careca", feito o senil capitão Ahab discursando aos marujos do Pequod, no clássico Moby Dick, de Melville.

Escrever é encarnar a monomania de Ahab, o caçador trágico da baleia branca. É viajar dentro da baleia — Jonas, Pinóquio, profeta, curioso, mentiroso. Na vida sou um sujeito normal e até afável, opaco; dirijo, cozinho, pago tributos. Escrevendo sinto-me Ahab e Raul, um galo de rinha, desejo te rasgar o olho, sou um cimarron rabioso. Volto velho, ingênuo, tão raulseixista como antes: "eu sou a mosca da sopa, e o dente do tubarão".

 
 

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