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Histórias12/05/2017 | 15h30Atualizada em 12/05/2017 | 17h32

"Vozes do tempo" resgata a memória de Flores da Cunha

Projeto do Arquivo Histórico de Flores da Cunha ouviu pessoas dos 75 aos 100 anos

"Vozes do tempo" resgata a memória de Flores da Cunha Roni Rigon/Agencia RBS
Foto: Roni Rigon / Agencia RBS
Maristela Scheuer Deves
Maristela Scheuer Deves

maristela.deves@pioneiro.com

A memória de Flores da Cunha resiste ao tempo e responde por nomes como Dolores Soldatelli, Cecília Mambrini Longo e Jaime Sgarion. Nos últimos dois anos, eles e sete dezenas de outros moradores da cidade, todos com idades entre 75 e 100 anos, contaram suas histórias — e, com elas, um pouquinho da história do próprio município — para a pesquisadora Maria de Lurdes Rech, do Museu e Arquivo Histórico Pedro Rossi, que desenvolve o projeto de memória oral Vozes do Tempo.

— Um senhor que vai fazer 100 anos cantarolou uma canção que a avó cantava quando voltavam da roça. Outros mostraram orações ensinadas pelas nonas, em italiano — emociona-se Lurdes.

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A pesquisadora conta que a iniciativa nasceu a partir de outras ações mais segmentadas, como pesquisas sobre a história da praça da cidade, do antigo Hospital Santa Terezinha e das escolas São Rafael e Frei Caneca. A metodologia consiste em visitar os moradores mais antigos e conversar bastante, passeando por temas que vão dos costumes da primeira metade do século 20 até histórias de família e casos curiosos. Os depoimentos são gravados e, aos poucos, estão sendo transformados em "minicontos da vida real". Alguns deles foram publicados no jornal O Florense, mas o material coletado daria um livro — ou vários, garante Lurdes. 

— São histórias incríveis, apaixonantes, nunca registradas. É preciso escrever essas histórias antes que desapareçam. 

O projeto também resultou num acervo de mais de 6 mil fotos antigas, algumas originais, outras reproduções, mas todas com algo em comum: mostram uma Flores da Cunha fortemente marcada pela religiosidade, pela vida em família, pela vitivinicultura e, também, por momentos festivos, dos alegres piqueniques a bailes de clubes. Agora, a luta da pesquisadora é pela criação de uma equipe para terminar de catalogar e organizar os depoimentos, fotos e cartas coletados.

Irmão em Suez 

Foto: Acervo da família Soldatelli,Arquivo Histórico Municipal Pedro Rossi / divulgação

Dolores Maria Soldatelli, 81 anos, ainda lembra quando, em meados dos anos 1950, o irmão Dante integrou o chamado Batalhão Suez, contribuição brasileira para as Forças de Paz da ONU que atuaram junto ao Canal de Suez, no Egito:

— Ele ficou dois anos por lá, e só tínhamos notícias de vez em quando, por carta. Não era como hoje, com telefone e internet. Quando ele voltou, a família toda foi até Porto Alegre recebê-lo. 

A alegria pela volta de Dante, um dos oito filhos de Pedro e Rosina Soldatelli, movimentou não apenas os familiares. Isso porque o rapaz trouxe na bagagem diversas lembranças de viagem, de tapetes a objetos típicos do Egito, que ficaram expostas na vitrine da loja de secos e molhados do pai e atraíram curiosos por um bom tempo.

_ Todo mundo vinha olhar e ficava admirado, porque ninguém viajava naquela época _ conta a professora aposentada, que hoje mantém uma loja de artigos religiosos e produtos naturais.
Aliás, o comércio está no seu sangue. Seu pai, Pedro, filho do italiano Luiggi Soldatelli, que veio da Itália com a mãe viúva e dois irmãos, sempre trabalhou com isso. Primeiro, no casarão da família em Nova Roma, depois na área central de Flores, a partir dos anos 1920.

— Naquela época, só tinha três lojas aqui, a Soldatelli, a Curra e a Mascarello. Tínhamos de tudo, meu pai negociava com os colonos, comprava aveia deles e vendia para a Quaker, em Porto Alegre. E quem casava fazia o enxoval lá conosco. Eu lembro que, quando era pequena, vinham os noivos, os pais da noiva, os pais do noivo, e almoçavam todos lá em casa. Minha mãe já sabia o tipo de colchas e lençóis para oferecer, dependendo se eram de uma família mais abastada ou mais simples — recorda Dolores.

Ela conta ainda que, na sua juventude, era preciso sair de Flores da Cunha para estudar. Ela e as irmãs foram para um colégio interno em Caxias do Sul, e os irmãos, para Porto Alegre. Por isso, ficou muito feliz quando foi convidada a integrar a equipe do recém-criado colégio São Rafael, no qual foi diretora por vários anos e que ajudou a suprir a carência na área.

Dante, por sua vez, mudou-se para Passo Fundo, onde já morava outro irmão, e faleceu lá há seis anos.

Família, religiosidade e festas 

Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

Os dois anos de pesquisa deixaram uma certeza em Maria de Lurdes Rech:

— Eles (os entrevistados) não se importam com a pobreza, com as dificuldades que tinham, e dizem que sentem saudades. É comum ouvir "nossa família era muito unida".

Outros valores frequentemente ressaltados pelos idosos ouvidos no projeto Vozes do Tempo são a obediência aos pais e mães e o foco no trabalho. As "nonas" são citadas por quase todos, conta Lurdes, e a religiosidade igualmente tem seu espaço, com fotos de primeiras comunhões e de grupos de Filhas de Maria, lembrancinhas de missas e, claro, dezenas de santinhos alguns trazem escritas em italiano, e pelo menos um deles data de 1904.

— São relíquias —  avalia a pesquisadora.

O material compilado revela ainda mulheres e homens elegantes em seus trajes de festa, famílias com vários filhos, coroações de rainhas e tardes passadas à beira de rios, além de times de futebol, bandas (como a Banda Garibaldi, formanda em 1898) e festas de casamento em casa. Entre as famílias mais tradicionais da cidade, o número de fotografias cresce, incluindo formaturas, lembranças de aniversário com foto, idas à praia e diversão nos clubes. Lurdes conta que, várias décadas atrás, eram comuns os bailes da chita, da seda, do azul, do vermelho, etc _ escolhia-se um tema e todas as mulheres iam com um vestido daquele material ou daquela cor.

Assim como as fotos, as histórias se acumulam, passando por trajetórias como a do médico italiano Antonio Giuriolo, que se instalou na então Nova Trento em 1898, ou a professora Luiggia Marchioro, a "maestra" de quem deriva o nome Vila Maestra, ou o fotógrafo Virgílio Tamagnone, que, além de fotos preto e branco, fazia a coloração das imagens. Há relatos curiosos, como o da ocasião que a professora Maria Dal Conte, da Escola Frei Caneca, levou seus alunos para apresentar uma peça de teatro em Nova Pádua e o padre de lá, que considerava o teatro algo imoral, convocou todos os paroquianos para uma reunião no interior, deixando a plateia vazia. Outras histórias, incluindo pequenos escândalos locais, Lurdes prefere não revelar:

— Muitas coisas que eu descobri, nem as famílias sabem.



 
 

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