"Os jovens vivem aflitos", diz o pesquisador José Machado Pais - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Entrevista15/05/2017 | 08h54Atualizada em 15/05/2017 | 08h54

"Os jovens vivem aflitos", diz o pesquisador José Machado Pais

Professor da Universidade de Lisboa fala sobre transições da vida

"Os jovens vivem aflitos", diz o pesquisador José Machado Pais Felipe Nyland/Agencia RBS
Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, o professor José Machado Pais teve uma grata surpresa, na semana passada, ao visitar a Festa do Divino Espírito Santo, no distrito caxiense de Criúva:

– Vi a dança do pezinho, que vem dos Açores e da Madeira, com uma letra muito semelhante. Também a chula, por exemplo. Vi aqui marcas dessas tradições. É muito interessante a observação desses trânsitos culturais. Ou seja, o Brasil é um país de imigrantes, também de migrantes. Portugal, nesse momento, por exemplo, está recebendo muitos brasileiros.

Na Serra para participar de atividades no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Caxias do Sul (UCS), como a banca de qualificação do projeto de tese de doutorado de Cineri Fachin Moraes e uma palestra sobre um de seus temas de investigação, Jovens e Transições de Vida, ele conversou com o Pioneiro. Confira os principais trechos da entrevista:

Pioneiro: Com o que sonham os jovens hoje?
José Machado Pais:
Digamos que os jovens vivem hoje numa situação de relativa aflição, quanto ao futuro. Ou seja, o futuro é um futuro aberto. Aberto à própria invenção do futuro por parte dos jovens. Há um campo de possibilidades que se entreabrem e que não é determinado como outrora era por um mecanismo de reprodução social. Os jovens de hoje são mais qualificados que gerações predecessoras e, por efeito dessa melhor qualificação, têm condições de serem protagonistas de mudanças sociais. Eles se envolvem em novas correntes socioculturais e estão, portanto, numa posição de livre câmbio social. Os jovens hoje em dia vivem também numa sociedade de mudanças constantes. (Zygmunt) Bauman, por exemplo, fala de sociedade líquida. Tudo muda muito velozmente, e eu diria que os territórios juvenis se inscrevem num cenário labiríntico. Os jovens de hoje em dia têm um conhecimento de adaptação, usam estratégias, astúcias, táticas de adaptação de uma sociedade em transformação. Assim vemos frequentemente, hoje em dia, jovens de uma determinada formação que exercem sua profissão em outro campo profissional que não tem a ver com a sua formação de origem. E isso significa o que? Significa uma capacidade de adaptação a estruturas móveis.

O que a sociedade hoje espera dos jovens e de que forma eles respondem a essas expectativas?
Os jovens aderem muito mais a novos valores, chamados pós-materialistas, em que já não contam apenas os valores materiais, mas valores como a defesa do meio ambiente, o individualismo, a realização pessoal. Não significa que estão presos a uma secundarização dos valores sociais. Não. A mensagem é que os valores sociais são tão mais expressivos quanto mais eles se refletem no bem-estar individual. Portanto, não se trata de um individualismo desligado de um sociocentrismo. Pode até haver esse perigo – e hoje vemos alguns filósofos e sociólogos falando sobre uma sociedade crescentemente individualista – e certamente, há aspectos da nossa sociedade que parecem apontar para esse individualismo. Mas há outro tipo de individualismo, cuja realização passa pela valorização dos valores mais sociocentrais, comunitários, a tal ponto que os valores sociais e sua concretização efetiva passam pelo seu reflexo no bem estar individual, e isso não tem a ver com um individualismo descomprometido com o bem-estar social.

Como a globalização afeta os jovens hoje em dia em relação às gerações anteriores e em relação à ideia de futuro que essa geração tem?
Os mais jovens estão mais preparados, pois têm uma relação muito mais amigável com as novas tecnologias, que permitem efetivamente trânsitos culturais e acessos a outras culturas e um nomadismo sem sair da cadeira. Posso estar em frente ao computador e viajar. É um novo sedentário, mas não fica sendo como um sedentarismo, porque os jovens são mais propensos à mobilidade, efetivamente. E também alguns estudos, pelo menos na Europa, apontam para essa propensão à mobilidade. A mobilidade estudantil, aliás, no caso da Europa, a União Europeia apoia e fomenta essa mobilidade particularmente entre os jovens universitários.

O senhor mencionou as tecnologias, a internet. Em algum momento elas se tornam negativas?
O mundo virtual reflete o mundo real em que vivemos e, portanto, constatamos que temos alienação, há efetivamente jovens dependentes, inclusive agora há o fenômeno recente da Baleia Azul, há assédios sexuais, falcatruas, cyber crime. Mas efetivamente hoje seria impensável podermos viver sem as novas tecnologias de informação e comunicação. Portanto, há diferentes usos. Embora existam discursos moralistas dizendo que é um perigo, e pode mesmo ser, não é, necessariamente, um perigo inevitável.

Como os jovens têm lidado com a crise econômica que tem atingido diversos países do mundo? Eles se deixam influenciar por essa instabilidade?
Sim, particularmente entre jovens universitários – e pensemos em países como os do Sul da Europa, Espanha que apresenta um desemprego estudantil em evidência, a Grécia rondando os 50% – e jovens com graduação, alguns com mestrado, com doutorado, tendo o diploma na mão e não conseguindo arranjar emprego é uma situação difícil e que explicou muitas manifestações de rua. Ou seja, alimentaram expectativas de realização profissional, pessoal, de mobilidade social, particularmente jovens que vinham de camadas sociais mais baixas, que pretendiam subir na vida e de fato têm suas vidas profissionais bloqueadas. No entanto também é verdade que encontramos em amplos setores da juventude uma capacidade de lidar com a crise. Há também uma narrativa que aponta para "Bom, cada um constrói sua biografia." Não é bem assim. Nem todos os sonhos de realização profissional são concretizáveis só porque são sonhados. Há sonhos cuja existência somente é possível ao nível do sonho, do desejo. Mas isso não significa que alguns desejos não possam ser realizados, mas que nem todos são concretizáveis.

Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

E qual é a importância de se ter um sonho mesmo que não seja possível realizá-lo?
Interessante, pois realizamos há um tempo um estudo sobre a profissionalização da criatividade. Os jovens são criativos, de uma maneira geral. Particularmente os jovens mais escolarizados, justamente por serem mais escolarizados, têm a vontade e o desejo de criar coisas novas no campo cultural, artístico, etc. Mas nem todos conseguem, obviamente. Eu acompanhei um grupo de jovens que pretendia profissionalizar-se no campo das histórias em quadrinhos. São jovens que têm uma vocação em desenho, design, e a família até reconhece essa aptidão. Mas é difícil, eles têm consciência de que é difícil. Mas o que é feito do desejo? Eu segui alguns jovens criadores de quadrinhos e o que constatei foi que: primeiro, eles, ao fazerem quadrinhos, exercitam uma capacidade criativa inimaginável. São criativos, criam histórias. Esses jovens criavam também uma agilidade mental que os levava a serem muito mais ágeis em outros domínios profissionais que depois podiam não ter a ver exatamente com os quadrinhos, embora o design, a ilustração, etc, tenham bastante proximidade, mas eles continuam nas horas vagas com esses hobbies, realizando-se pessoalmente (nível pessoal), e ganham dinheiro em outras atividades, onde se realizam profissionalmente e ganham notoriedade, pois são imaginativos.

O fato de morar em países com realidades diferentes faz com que pensem diferente em relação ao futuro?
Não há muito tempo se realizou uma pesquisa com jovens ibero-americanos (do Centro e Sul da América, México, Portugal e Espanha) e foram constatados alguns posicionamentos semelhantes, embora com algumas diferenças. Por exemplo, os jovens sul-americanos apontam como um dos maiores problemas a violência e os jovens ibéricos apontam o desemprego. 

O senhor também fala da discrepância sobre a idade cronológica e a social. Como isso ocorre?
Há um filósofo, (Roland) Barthes, que uma vez estava à janela da sua casa, olhando para a rua, e observou uma mãe com um filho pequeno de uns dois anos mais ou menos, e ela puxava a criança pela mão, mas a criança ficava para trás, via-se que seu andar era diferente, em razão das pernas mais curtas, e, portanto passos mais curtos, mas também porque olhava as lojas ao redor. Mas a mãe pelo visto também estava com pressa. Através dessa observação, Barthes pensou em um conceito: disritmia, ou seja, ritmos diferentes. Poderíamos dizer o mesmo a essa descoincidência entre idades biológicas e cronológicas em uma infinidade de situações. Pelo menos na Europa, com dificuldades de inserção profissional, há jovens que prolongam sua estadia na casa dos pais, podendo morar com eles até os 30 anos ou mais. Continuam dependentes. Outros adquirem certa independência, por exemplo, residencial, mas não financeira. Os pais continuam dando mesada. A família tenta então amparar, dar suporte aos jovens, mas nem todas as famílias têm possibilidades de dar esse suporte. Alguns jovens têm essa almofada, portanto, que amortece as coisas, e que os permite usufruir de sonhos de consumo, lazer, etc. Outros não. Isso faz com que efetivamente exista um consenso em termos ideias sobre as idades. Hoje é muito difícil dizer quando um jovem passa a ser adulto. E aí passamos a falar em um novo conceito que é o de jovem adulto. Ou seja, é uma geração sanduíche que está entre a juventude e a fase adulta.

 
 

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