Gilmar Marcílio: sou o que vi - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião05/05/2017 | 09h00Atualizada em 05/05/2017 | 09h00

Gilmar Marcílio: sou o que vi

"Somos constantemente afetados por tudo o que vemos, fazemos ou sentimos."

Para o budismo, não existe nada mais enganoso do que acreditar na existência real do Eu. Nos dizem que somos a soma do nosso tempo e da geografia em que estamos inseridos. Se essas condições desaparecem, igualmente desaparece tudo aquilo com que nos identificamos. Para ser mais preciso: se eu tivesse nascido no Nepal ou na Turquia, absolutamente tudo seria diferente. Então, esse centro que acreditamos imóvel e imutável é produto das circunstâncias, apenas. Com essa afirmação, não nos dizem que a alma é uma ilusão, um derivado do nosso desejo de imortalidade. Apenas que somos constantemente afetados por tudo o que vemos, fazemos e sentimos. E o resultado disso se chama Maria, Carlos, Gilmar, Cecília. 

Não foram poucas as vezes em que tive a certeza de que um encontro, um único encontro, mudou definitivamente a minha vida. Se naquela hora, naquele dia, eu tivesse resolvido fazer outra coisa ou frequentar um lugar diverso, toda uma rede de acontecimentos posteriores teria deixado de se formar. Chamaremos isso de acaso? Pode ser, mas com uma força extraordinária na condução das existências individuais.

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Mas não é só isso. Sei que se não tivesse cursado Filosofia, minha maneira de ver e interpretar o mundo seria completamente diferente da de hoje. Eu confluo de todas as páginas que meus olhos traduziram com a razão e os sentimentos. Fiz escolhas a partir do que foi se criando dentro de mim, da moral e da ética que está sendo constantemente formada e transformada na medida em que me debruço e leio os autores que me foram capitais. Observo colegas com quem convivo há anos. Ocupamos o mesmo espaço físico, conversamos sobre os mesmos assuntos. 

Porém, há muitas particularidades que resultam dos contatos que cada um estabelece fora dos limites do trabalho. Gosto de pensar que esses pequenos acidentes cotidianos, quase sempre banais, irão causar uma mudança significativa em como absorvemos o que nos será apresentado. A música ou o teatro também exercem um papel fundamental na construção do que somos. Nada é inócuo e a todo momento alguma faísca cai dentro de nós, alterando o desenho da nossa personalidade. Por isso, todo cuidado é pouco até quando vamos escolher com o que nos divertir. Há nisso um poder tantas vezes desconsiderado.

Eu acho isso fascinante e assustador. É como se uma pilha de cadáveres repousasse ao meu lado, representando todas as possibilidades não experimentadas. E cada um de nós fosse dezenas, centenas de criaturas que não conseguiram nascer. Que riqueza e que fatalidade, pois jamais descobriremos esses duplos que jazem aos nossos pés. Façamos, então, por merecer esse milagre do nascimento em meio a tudo o que poderia não ter sido. É só um pequeno descuido e... talvez nem fosse possível completar sequer este texto.

 
 

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