Gilmar Marcílio: amor e boas obras - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião12/05/2017 | 09h00Atualizada em 12/05/2017 | 09h00

Gilmar Marcílio: amor e boas obras

"Não façamos das veleidades um centro que nos impulsione".

Tudo o que precisamos, disse o jovem pastor da aldeia inglesa, é de amor e de boas obras. A série a que eu assistia era um instigante suspense, mas a partir daquele momento se tornou uma reflexão que dominou meus pensamentos. Passamos a vida nos debatendo com coisas vãs, enquanto a morte espreita ao nosso lado. O sofrimento alheio faz nascer em nossas bocas cansadas algumas frases de lamento, quanto muito. 

Pouca ação, abundância de consciência teórica. O amigo que chora a morte da mãe, o andarilho que dorme ao relento e que contemplamos com certa indiferença. Outro atravessa o mês angustiado porque não consegue mais pagar as contas com seu parco salário. 

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E nós, imobilizados no egoísmo, vivemos distraídos, sem nada fazer. Afinal, qual é a nossa obra? E o que estamos pincelando com amor? Para se compreender um ser humano, basta observar um único dia de sua existência. Mesmo não sendo desafiado a mostrar a sua generosidade, as atitudes de seu cotidiano revelarão muito de si. É nas dobras modestas de uma manhã qualquer que se revelam os traços mais marcantes do nosso caráter. Crer e ter fé são poderosos motores a nos conduzir rumo a algo que transcenda o egoísmo. Perder é lição valiosa, mas de precária duração para as almas distraídas.

Nossa função no mundo é a de ser um tênue fio que sustenta a teia. Quase invisível, mas precioso para que a arquitetura se mantenha de pé. Medito para ampliar minha compreensão, a maravilha dos sentidos. Leio e procuro escutar com atenção para descobrir que minha voz só existe em consonância com as demais. Sou diferente e preciso aceitar as diferenças — é esse o mais desejado dos propósitos. Como um ser errante, cada um deve colher nas feições alheias a gratidão por tudo o que nos toca. E fazer. 

Nosso corpo é um instrumento perfeito e é nele que encontramos a possibilidade de servir a quem sofre, ultrapassando essa precária individualidade. Não façamos das veleidades um centro que nos impulsione. Que os olhos abracem sempre quem está precisando ser consolado. Essa aprendizagem pode ser feita lendo a Bíblia, um texto de Sêneca ou escutando o desabafo de quem nos procura. São poucos os momentos de grandeza, as epifanias com as quais todos sonham. O que nos é oferecido é pequeno, mas é esse o material que temos para testar se nosso destino é a grandeza ou a mediocridade. Ser delicado, gentil, emprestar nosso tempo para cuidar do outro, tais são os desafios para nossa breve jornada. A grande ceifadora ri satisfeita toda vez que nos esquecemos disso. É a vitória que ela procura.

Este pequeno hino ao desapego me alcança numa serena manhã de outono, quando me sinto reconciliado. Sou grato por saber que só existe um enquanto existirem todos.


 

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