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Opinião18/05/2017 | 09h00Atualizada em 18/05/2017 | 09h00

Francisco Michielin: sempre será a Festa da Uva

Onde um giro pelo passado recomenda que é sábio dar tempo ao tempo

Francisco Michielin
Francisco Michielin

franmcf@terra.com.br

Desconheço se a Dona Marisa sabe, porque o marido dela, coitado, ignora tudo. Mas, aproveito para contar que eu também tive que aguardar pela Festa da Uva. Precisou que a Segunda Grande Guerra terminasse de lamber suas feridas e fechasse suas cicatrizes. No meu caso, um piá de cinco anos, bastava uma única mão indicando a idade da minha incorruptível infância. Os adultos é que curtiram um longo hiato de meia-dúzia de anos para a sua retomada. O que significa que esse dilúvio em torno do curto e momentâneo adiamento pode não passar de tempestade num copo d'água. Vai dar tempo para pensar e repensar, corrigindo eventuais desvirtuamentos, evitando a banalização. E primar por ser uma celebração das origens e das raízes das quais têm se desviado.

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Toda essa celeuma recente me remete aos idos de 1950. Vivíamos provincianamente. Não havia atrativos de vulto. Verdade que éramos crianças e sem aspirar grandes coisas. Para nós serviam poucos e singelos folguedos. Até que refulgiu o marcante anúncio que a festa renasceria e, ainda por cima, há menos de duas quadras de onde morávamos. Só o nome do evento atiçava nossa imaginação e assumia ares de encantamento. Mal conseguíamos conter nossa ansiedade. Passávamos quase todas as tardes vendo os operários martelarem prego por prego, empenhados em construírem o pavilhão e a concha acústica para as audições musicais e os acordes sinfônicos da orquestra municipal regida pelo Maestro João Cosner.

Numa certa manhã fomos surpreendidos com a armação do pórtico. Ficamos maravilhados com seu aspecto solene, quase imperial. Todavia, nossa empolgação se refreou ao nos darmos conta que "aquilo" seria uma barreira ao nosso franco e livre acesso. Pagar entrada diariamente terminaria exaurindo nossas minguadas mesadas, porque o dinheirinho era reservado para o parque de diversões.

Aquele fevereiro se descortinou esplendente ao sol. Nesse mesmo pórtico, eu vi, com meus olhinhos de guri curioso, o corte da fita simbólica pelo presidente da República, Eurico Gaspar Dutra — a quem apelidavam de "Caneca Amassada", pela conformação do nariz. Se a minha memória não me trai, ele trajava um terno de linho branco — o chique da moda estival.

Foi um domingo perfeito, coroado pelo corso alegórico que eu assisti com o coração aos sobressaltos. A avenida radiosa e lotada de povo. E a gurizada mais alegre ainda porque os porteiros da feira, de tanto nos conhecerem, passaram a nos deixar entrar sem furar ou gastar um só vintém. Nem eu e nem Dona Marisa sabíamos que num lugar do futuro uma rainha estaria a minha espera.

 
 

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