É um leitor apaixonado pela "Série Napolitana", de Elena Ferrante? Esse texto é para você! - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Literatura26/05/2017 | 14h00Atualizada em 26/05/2017 | 14h00

É um leitor apaixonado pela "Série Napolitana", de Elena Ferrante? Esse texto é para você!

Sucesso absoluto, tetralogia da escritora italiana reflete a condição feminina na história de duas amigas que vivem em Nápoles

É um leitor apaixonado pela "Série Napolitana", de Elena Ferrante? Esse texto é para você! Reprodução/Reprodução
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No dia 18 de fevereiro, no meio da leitura de História do Novo Nome, não me segurei e mandei uma mensagem para uma grande amiga: "Neste exato momento, estou incomodada e decepcionada com a Lenu. O que ela está fazendo com a vida dela?". Ela, que lá de Brasília estava lendo o mesmo livro com igual obsessão, me respondeu: "Ela sabe que vai dar m. e mesmo assim faz... Mas a gente não faz isso o tempo todo?".

Na semana passada, quando fãs comemoravam o lançamento da quarta e última parte da chamada Série Napolitana que fez da escritora Elena Ferrante um dos grandes nomes da literatura contemporânea, outro amigo postou nas redes: "Tô lendo o segundo livro. Raiva demais dessa Lina." E eu o tranquilizei: "Já tive raiva, amor, identificação, solidariedade e tudo mais com uma e com outra. Lina e Lenu são tão humanas quanto a gente".

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Escrevo este texto a poucas páginas de encerrar A História da Menina Perdida, o derradeiro livro da tetralogia. E à medida que a jornada dessas duas mulheres e da amizade que as uniu da infância à velhice se aproxima do fim (calma, este é um texto sem spoilers!), torna-se mais evidente o que fez da série um fenômeno editorial, conquistando conquistou leitores apaixonados e passionais mundo afora. No bairro pobre na periferia de Nápoles, onde tudo começa e para onde sempre se volta, cabem as histórias de todos nós, as minhas e as suas. A insegura e diligente Lenu, que vai ganhando (e às vezes perdendo) voz ao longo dos livros, e a voluntariosa e extraordinária Lina vivem dramas universais. Ainda que você não tenha crescido, como elas, em um ambiente onde a violência faz parte do cotidiano, seus dilemas são aqueles que todos nós vivemos. E que poderiam ser resumidos assim: as escolhas que fazemos, tanto seguindo nossa vontade quanto por culpa ou falta de opção. E o que cada escolha faz de nós.

Acompanhamos a dupla desde meninas, sempre pelo olhar de Lenu. Da infância à adolescência e à vida adulta, cada uma busca trilhar um caminho que lhe dê a chance de viver uma vida diferente da dos pais. Lenu estuda, faz planos, é toda esforço e dedicação para um dia ser alguém e desbravar o mundo. Lina, que não pôde concluir o colégio, usa a inteligência acima da média, a ousadia e seu senso meio egoísta de oportunidade para fazer do bairro seu próprio império. Elas se gostam, se ajudam, e também se ferem, se provocam num eterno dueto, ora em total sintonia, ora fora de compasso.

Tudo é narrado pelos olhos de Lenu, que faz da escrita seu passaporte para outra vida. E ela nos revela Lina, que, mesmo compartilhando a intimidade com a amiga de infância, sempre faz questão de guardar segredos só seus. Já Lenu, por mais feitos que contabilize ao longo da vida, nunca vence a insegurança que todos experimentamos um dia, de quem saboreia uma conquista sem ter certeza se a merece de fato. Ela se mede não apenas por seus méritos e falhas, mas em comparação com Lina, que julga mais bonita, talentosa e original – enfim, "a amiga genial", como diz o título do primeiro livro. Mas, algumas páginas adiante, a autora sempre nos lembra que a mesma Lina que parece flanar soberana entre todos os personagens, tem seus próprios demônios. Como qualquer um de nós.

E aí entram os leitores, ora se sentindo completamente Lenu, com sua persistência e seus repetidos erros. Ora esbravejando contra Lina, para em seguida ter vontade de lhe dar um colo ou se reconhecer nela. Com uma habilidade que nos desarma, Elena Ferrante criou mais do que um romance e um retrato das mudanças por que passou a sociedade italiana (e o mundo ocidental) a partir da segunda metade do século 20. A escritora que esconde sua identidade por meio do pseudônimo agora tão famoso conduz o leitor com maestria, capítulo a capítulo, livro a livro – o primeiro deles termina no meio de uma cena decisiva, ao melhor estilo dos seriados de suspense – fazendo com que a gente não descubra apenas mais sobre Lina e Lenu, mas sobre nós mesmos. Como em A Filha Perdida ou Amor Incômodo, outros (ótimos) títulos dela lançados no Brasil, a autora fala especialmente às mulheres, tratando com muita honestidade de questões do universo feminino, como a relação mãe e filha. Mas isso não quer dizer que a tetralogia é apenas sobre/para mulheres: a obra maior da escritora é para todo e qualquer leitor que goste de boa literatura.

E agora, depois de ter ficado íntima de Lenu e Lina nos últimos meses, estou a poucas páginas de descobrir seu desfecho. Já sei que sentirei saudades (sorte de você que me lê agora e, quem sabe, tem ainda os quatro livros a descobrir). Mas, como boas amigas, elas seguirão com seus leitores.

 
 

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