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Opinião10/05/2017 | 09h00Atualizada em 10/05/2017 | 09h00

Ciro Fabres: as mortes da cidade  

"A cidade, por exemplo, nem se dá conta de suas mortes"

A realidade é avassaladora. Está avassaladora, dizendo melhor. E bastante criativa nos enredos, especialmente imaginosos quando se trata de levar a melhor e na disputa pela narrativa dos fatos. O noticiário vai atrás, vertiginoso, uma notícia devorando a anterior, e aí reside um sério problema. As notícias são cada vez mais efêmeras. Assim, escorre pelo ralo a profundidade para a compreensão dos fatos e histórias de vida restam desconectadas, sem contexto, soterradas pelo episódio seguinte.

A cidade, por exemplo, nem se dá conta de suas mortes. Sequer se esforça para solenizá-las, para entendê-las, para homenagear quem se vai. Então, as vidas restam esquecidas, desvalorizadas. Sexta-feira agora, cedinho da manhã, uma idosa de 71 anos foi atropelada na esquina da Coronel Flores com a Vinte de Setembro enquanto passeava com o cachorro. Exceto familiares e os mais próximos, a cidade ainda lembra? Saiu para passear, como provavelmente fazia toda manhã, mas desta vez não voltou. O cachorro certamente ficou por ali, em volta, sem entender. Cachorros preocupam-se sinceramente com seus donos. É uma morte clássica da cidade, com o retoque dos detalhes.

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Hoje, cinco dias depois, essa morte já foi soterrada por outros acontecimentos. Há tanto assunto, afinal. Mas é preciso recuperá-las, as mortes da cidade. Se assim não se faz, perdem-se as histórias, perde-se o valor das vidas, e as mortes não são entendidas em suas causas, o que é fatal, o que é o primeiro passo para se repetirem, outras iguais.

A idosa de 71 anos morreu atropelada em São Pelegrino porque a cidade não é feita para idosos. Porque os tempos modernos não são feitos para idosos. São velozes, apressados, indiferentes, e saia da frente quem se atravessar na frente. A idosa morreu atropelada porque a cidade não é feita para os pedestres, desrespeita os pedestres, não protege os pedestres – quanto mais os pedestres idosos. A mulher de 71 anos morreu atropelada porque Caxias do Sul não é uma cidade humana, nem faz questão de ser, porque não se importa com os pedestres, porque não toma as providências para protegê-los, como colocar sinaleiras com tempo exclusivo para eles, com tempo suficiente para a travessia de idosos, que andam mais devagar. Ou como exigir respeito às faixas de segurança. Claro, essas providências travam as cidades, tiram a velocidade das cidades, então elas não são tomadas. São verdades chatas, mas é a verdade nua e crua.

Por essas e outras, Dona Nadir, a idosa de 71 anos, perdeu a vida. A cidade deveria mudar seu jeito, em homenagem a Dona Nadir e a tantos outros. Mas não tem tempo para isso. Nem faz questão de ter.

 
 

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