Ciro Fabres: a sofrência  - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião31/05/2017 | 08h00Atualizada em 31/05/2017 | 08h01

Ciro Fabres: a sofrência 

Não se reduz a realidade assim impunemente. Tanto assunto desprezado! Que pecado!

Não deixa de ser inesperada, quase um pouco engraçada, a tradução da dupla Simone e Simaria, que fez show há poucos dias em Caxias do Sul: "A gente canta a realidade do Século 21", fulminou uma delas, Simone, em uma síntese que muito bem poderia enveredar para um tratado sociológico. Mas elas estão falando do que se convencionou chamar de sofrência e de um certo "empoderamento" feminino, que consiste em as mulheres darem-se ao direito — legítimo, aliás — de incorporar certos hábitos e comportamentos até algum tempo tipicamente masculinos nos entrechoques de gênero em busca de espaço nas noites da vida. Não deixa de ser empoderamento, afinal de contas, e por isso o tema integra "a realidade do Século 21", aquela que abriga, no dizer delas, o repertório de suas composições. 

É bom que a realidade motive canções. Mas há uma severa restrição, óbvia, aliás, visível ao exame mais superficial. Porque a realidade do Século 21, ou de qualquer século, é muito mais do que só sentimentalismo, desilusão amorosa, farra e traição, os temas invariáveis da sofrência. Então, a música vira só sofrência, sofrência e mais sofrência, como se a realidade fosse do tamanho dessa estreiteza. Essa é a impiedosa limitação promovida à música sertaneja, que, obviamente, é muito mais do que isso. E tudo sob as bênçãos da indústria do entretenimento, que parece se deleitar com essa redução implacável.

Mas não se reduz a realidade assim impunemente. Tanto tema e tanto assunto desprezado! Que pecado! Porque dispor-se a cantar a realidade do Século 21, como dizem Simone e Simaria, essas duas legítimas representantes da safra atual da sofrência, é estar aberto a explorar uma infinidade de outros temas, riquezas, experiências e possibilidades. É permitir e oferecer temas minimamente diversificados, abertos, amplos, provocativos, sugestivos, instigantes. 

É uma sofrência nacional, a sofrência. Aliás, a sofrência nacional: que rico assunto, que bela possibilidade a ser explorada. Existe, sim, uma sofrência nacional, de perfil insistente e repetitivo, como esse estilo musical que gruda em nós sem piedade. Dela são características a corrupção, a esperteza, a ineficiência, o abuso, o desrespeito, a violência. E o desafio é não ficar indiferente à sofrência nacional. Quem sabe, se não for pedir demais, até contar com a parceria dessa música que nos é oferecida todo dia, o tempo todo sem parar, para essa empreitada especulativa acerca da existência e da realidade. Como já foi em outros tempos. É só ampliar um pouco o foco. Afinal, "a realidade do Século 21" fala por si. É rica e instigante por natureza, bem além das farras e desilusões.

 
 

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