Youtuber carioca Kenia Maria é a primeira defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Entrevista10/04/2017 | 06h00Atualizada em 10/04/2017 | 06h00

Youtuber carioca Kenia Maria é a primeira defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU

Ela comanda o canal Tá Bom Pra Você?, que usa humor para combater o racismo

Youtuber carioca Kenia Maria é a primeira defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU Lucas Gabriel/Divulgação
Kenia iniciou trabalho com mulheres negras aos 18 anos, no grupo cultural Afroreggae Foto: Lucas Gabriel / Divulgação

Kenia Maria ainda não é um nome exatamente conhecido, mas você provavelmente ainda vai ouvir falar muito dela. Youtuber do canal Tá Bom Pra Você?, ela usa o humor para falar de questões muito sérias, como a pequena representatividade do negro na mídia ou padrões de beleza brancos. A trajetória da carioca, que inclui ainda trabalho no grupo cultural Afroreggae, ganhou evidência com a recente nomeação dela como a primeira defensora dos Direitos das Mulheres Negras. Kenia foi eleita pela ONU Mulheres Brasil.

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No papo que bateu com o Pioneiro, a youtuber fala de seu planos à frente do cargo, enfatizando assuntos urgentes como o feminismo, a intolerância religiosa e a violência. Confira:

Pioneiro: Você foi criada num ambiente doméstico que sempre valorizou o resgate da ancestralidade. Como essa influência familiar moldou quem você é hoje?
Kenia Maria:
Meu avô paterno era babalorixá e eu sou herdeira espiritual dele, portanto sou Ialorixá, e minha avó paterna desfilou a vida inteira na Portela, na ala de baianas. E minha avó materna era escritora. Em breve será lançada a biografia dela, na qual será retratada a história de minha tataravó, uma índia do sul da Bahia que tentou fugir com sua tribo, mas ficou presa em uma árvore e foi laçada por um italiano que casou com ela, quando tinha 13 anos. Meu avô materno foi músico regente, clarinetista e líder do sindicato dos ferroviários. Nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, em Del Castilho, cresci em um quintal com primos e tios e sou sobrinha do mestre Celso – fundador do Engenho da Rainha, um dos movimentos de capoeiristas mais respeitados do Brasil. Sou filha de uma pedagoga e meu pai, hoje aposentado, foi segurança do presidente da Brahma. Venho de uma família consciente, matriarcal e de mulheres feministas. Aprender sobre a minha cultura e valorizar minha ancestralidade foram regras na minha família. Me sinto privilegiada por isso.

O feminismo vem ganhando cada vez mais espaço em debates e discussões atuais. As pautas do feminismo negro estão inclusas nessa conquista? Elas vêm avançando na mesma proporção?
Lamentavelmente são lutas diferentes e não estamos no mesmo ¿barco¿. Enquanto mulheres brancas avançam no mercado de trabalho em cargos de liderança, nós ainda estamos reivindicando o direito de estar vivas! De não ter só serviço doméstico como opção, por exemplo. Vale lembrar que 80% das trabalhadoras domésticas deste país são mulheres negras. São 6 milhões de mulheres trabalhando como empregada doméstica, às vezes sem querer e por falta de opção. A violência contra mulheres brancas diminuiu 10%, número pequeno, mas a das mulheres negras aumentou 54%, um número absurdo. Mulheres negras ainda são as que têm menos chances de se casar e ainda somos hipersexualizadas. As mulheres negras ainda estão lutando para serem tratadas com humanas. Então, não tem avançado na mesma proporção, nossas demandas são mais complexas. Estamos em um país que resistiu até o último minuto para abolir a escravidão. A mulher negra ainda está na base da pirâmide social.

Qual seu principal objetivo com o canal Tá Bom Pra Você?
Denunciar o racismo através do humor, da arte. Estamos no YouTube há quatro anos, rindo do opressor e dizendo: ¿ei, para que tá feio! Você já não me engana¿. O Tá Bom Pra Você? nasceu da ideia de minha filha, que aos 13 anos percebeu que, como atriz, teria poucas chances de conquistar um espaço, pois não se via representada na televisão, cinema e publicidade. Então, eu criei essa proposta, que é a primeira websérie negra criada no Brasil e protagonizada por uma família de atores negros. Nosso objetivo é provocar um debate na sociedade brasileira. Negros consomem mais de R$ 1,5 trilhão por ano! Somos mais de 50% da população brasileira, segundo dados do IBGE. É muita estupidez negar assistência a 110 milhões de habitantes, que são consumidores em potencial.

"A mulher negra continua sendo hipersexualizada, resistente à dor, louca raivosa", aponta Kenia Maria Foto: Lucas Gabriel / Divulgação

Entre os assuntos mais presentes nos vídeos está a imposição de padrões de beleza brancos. Você percebe que essa é ainda uma situação muito presente na realidade das meninas negras?
Brancas e principalmente negras! A bela, recatada e do lar é o padrão a ser alcançado e é isso que a mídia propõe. No caso da mulher negra, não se espera nem isso. A mulher negra continua sendo hipersexualizada, resistente à dor, louca raivosa – aquela que é boa de cama mas não para casar e construir família.

Quais são os três maiores desafios enfrentados pelo movimento negro no Brasil, hoje?
1. Violência contra mulher negra, que vem aumentando ao longo de 10 anos. 2. O extermínio de jovens negros, que inclusive já foi denunciado pela Anistia Internacional dos Direitos Humanos. Os números são de guerra: 80% dos jovens que morrem vítimas de homicídio (de 14 a 29 anos) são negros! Mas isso, inacreditavelmente, não comove o Brasil! 3. Problemas socioeconômicos: negro no mercado de trabalho, nos cargos de liderança, na política, nas artes, escrevendo suas histórias, protagonizando grandes filmes, apresentando programas de TV, telejornais e fazendo publicidade. A arte tem o poder mágico de transformar, formar e descolonizar nossas mentes. Acredito que arte com seu poder de transformar possa colaborar efetivamente na luta contra o racismo no Brasil. Não é à toa que não nos deixam ¿entrar¿. Não é à toa que somos menos de 5% na indústria de entretenimento, no cinema, no teatro e na publicidade. Isso é uma estratégia que colabora com a manutenção do racismo.

Como cada indivíduo pode se tornar um agente contra o racismo?
Revendo seus privilégios, apoiando a necessidade de reparação como política de cotas para negros, educando seus filhos para que aprendam a respeitar e até admirar as diferenças. Ouvir nossas demandas e não tentar protagonizar nossas lutas, esse tem sido um problema. Pegar nossas ideias, produzir, assinar autorias... apropriação cultural é uma forma cruel de tirar nossa visibilidade.

Redes sociais são aliadas contra a desigualdade racial?
Muito! Isso tem acontecido. As feministas negras fazem um trabalho incansável, não paramos! E mesmo assim a internet ainda não é um espaço no qual todos têm a oportunidade de se tornar um formador de opinião e construir uma imagem que atraia o olhar da publicidade, pois não se faz nada sem dinheiro. Youtubers negros não têm a mesma visibilidade que youtubers brancos! Nem os que já estão nas grandes mídias conseguem protagonizar grandes campanhas publicitárias.

Quais são teus planos mais urgentes à frente do cargo de defensora dos direitos das mulheres negras?
Atuar contra a intolerância religiosa, a violência contra o povo das religiões de matriz africana. Através da literatura infantil, conscientizar meninas sobre as histórias que não são contadas nas salas de aula, mesmo com existência da Lei 10.639, que obriga as escolas a falar sobre a África e sua influência na construção do Brasil. Também falar da ausência da mulher negra na TV, cinema, teatro e publicidade.

 
 

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