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Opinião07/04/2017 | 09h00Atualizada em 07/04/2017 | 09h00

Gilmar Marcílio: Tudo o que é raro

"Despertamos diante das novidades, reconhecendo a avidez do querer"

Na chácara em que moro, há abundância de pêssegos, laranjas, bergamotas, caquis, limas. Mas apenas duas modestas plantas de jabuticaba. Adivinhe por que frutas espero ardentemente, toda estação? Há algo de especial em sorver sua polpa branca e macia. São poucas,são raras. E, a par o fato de as apreciar sobremodo, sei que seu sabor se intensifica ainda mais por não poderem ser colhidas às cestas. Pois não é assim com tudo o mais na vida? Por exemplo: os casais que mais se dão bem costumam ser os que passam boa parte do dia separados. Na melhor das circunstâncias, as qualidades se ampliam quando têm somente o fim de semana para usufruir da recíproca companhia. 

Desaparece a banalidade para dar espaço à expectativa e,numa analogia com a variedade de frutas acima citadas, a presença ganha o caráter da excepcionalidade. Continuar desejando significa estar longe dos olhos, ansiar. O que é a anestesia dos sentidos senão o resultado da repetição?

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O gosto, por mais refinado que seja, se visita o nosso paladar com constâncias,acaba se tornando desinteressante. O que está distante nos dá a sensação (às vezes falsa, salientemos) de que brilha mais do que aquilo que está sob nossos olhos. Somos animais que se enfastiam facilmente. Despertamos diante das novidades,reconhecendo a avidez do querer.

É um ideal a ser alcançado, esse de fazer com que nos queiram mais pela nossa ausência do que por um contato abusivo. Mas como agir quando a partilha das tarefas cotidianas impõe a divisão das cotas de responsabilidade? Os filhos não haverão de ser criados somente por um ou por outro. Afastar-se é ser omisso, deixando a responsabilidade para terceiros. Eu me debato sobre essa questão com frequência, sem ainda ter encontrado uma resposta satisfatória. Sei o que não dá certo quando há uma overdose de proximidade. Isso só vale quando estamos apaixonados. Depois, cada um deveria descobrir interesses particulares para servir de assunto para os momentos de intimidade. O ganho adicional será o da incerteza; não da segurança, que mata o amor e, em muitos casos, o respeito.

Como conseguir o equilíbrio? Não se pode tabular dados e depois transformar tudo numa mera estatística. Há que se considerar as peculiaridades de cada um. Temos os carentes abusivos, que precisam estar sempre colados em alguém. No outro extremo, os independentes,que não necessitam de ninguém para estar em perfeita sintonia consigo e com o mundo. Em meio a eles, continuamos todos em busca de uma relação ideal, que eu e você sabemos não existir. No entanto, podemos colaborar, aprendendo a servir aos demais doses exatas de nós mesmos. Em pequenos recipientes, como um néctar.


 
 

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