Francisco Michielin: nem os mortos têm sossego - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião27/04/2017 | 09h00Atualizada em 27/04/2017 | 11h04

Francisco Michielin: nem os mortos têm sossego

"Onde se prova e comprova que até os mortos podem ter insônia"

Francisco Michielin
Francisco Michielin

franmcf@terra.com.br

Outro dia, quer dizer, em alguma avançada noite, inventaram de invadir logo o cemitério. Os visitantes, pelo visto ou pelo não visto, estavam mal intencionados. Seu único objetivo era o de saquear os túmulos, sem se importar que tal violação profanasse objetos sagrados. Enganam-se os que pensam que eles foram lá para rezar. Se é que fizeram alguma prece não foi pelos defuntos, mas para suplicar que a pilhagem rendesse bons frutos. Massacradas pela crise, a essas almas penadas só restou depenar os jazigos.

Claro está — se bem que a operação ocorreu no escuro — que os meliantes haviam planejado o furto meticulosamente. Pressuponho que eles percorreram a necrópole, estudando estrategicamente e previamente as suas vielas usando bons e piedosos disfarces. É de se imaginar algum deles com as mãos no bolso e entoando o Pai-Nosso aos murmúrios. Dois ou três simulando choro à beira das tumbas, contritamente ajoelhados e puxando o rosário, útil para contar cripta por cripta e não serem puxados pelos pés. Com todas as minúcias, desenharam o mapa dos tesouros e o traçado do itinerário sinistro em sua missão de caça-fantasmas.

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Não afirmo e nem juro, apenas conjecturo, que o assalto fúnebre tenha sido desfechado aí pelas três da madrugada que é sempre uma hora conciliadora e, ao mesmo tempo, perturbadora, relaxando os crentes sonolentos e excitando aqueles ateus de má índole. Desconheço, também, se usaram o portão frontal ou se pularam a cerca, sem pedir licença. O que é de menos. Aproveitando-se do sono eterno dos inermes moradores e da justa e profunda soneca dos fatigados coveiros que haviam cavado e tapado diversas catacumbas durante a jornada diurna, os "expedicionários arqueológicos" mergulharam nos túmulos, cuidando para saírem vivos. 

Munidos de minúsculas lanternas, riscando fósforos, acendiam e apagavam velas não só para iluminar e camuflar, como para pagar promessas pelo sucesso. Encheram os sacos com as jóias das coroas e dos coroas sepultados na quietude do seu descanso. Seria oportuno saber se alguma voz resmungou do Além para delatar que estavam surrupiando a sua ração de silêncio, frustrando os esperançosos de encontrar dinheiro guardado no "caixão-dois"...

É de se crer que o atrevimento dos ímpios peregrinos proporcionou um butim proveitoso. Cerca de cinqüenta campas tiveram suas "portas" arrombadas. Ao arrancarem sadicamente bronzes, estátuas e placas, já tramaram, com toda certeza, rindo à toa e sem medos de assombrações, a próxima investida numa dessas gélidas e sombrias madrugadas. Afinal, assaltar cemitérios faz parte dos ossos do ofício...


 

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