Ciro Fabres: almas brutas - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião05/04/2017 | 10h38Atualizada em 05/04/2017 | 10h38

Ciro Fabres: almas brutas

Há uma relação direta entre o embrutecimento progressivo e a música oferecida à população

Há muito tempo, suspeito fortemente de que nosso embrutecimento progressivo tem como uma de suas causas centrais o empobrecimento daquela nossa produção musical que é preferencialmente oferecida e distribuída no atacado a grande parte da população pelos programas de rádio e tevê. A mensagem vem maciçamente, direta, sem estímulo à imaginação, ao exercício da sensibilidade, à elaboração estética e reflexiva. Quase sempre são variações em torno do mesmo tema, embrulhadas em uma sonoridade invariável, tudo isso despejado o tempo todo sobre ouvidos e almas menos exigentes.

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Não se trata aqui de estabelecer uma antipática relação de crítica superior a músicas de qualidade mais duvidosa, nem tampouco de segregação a gêneros musicais. Mas sim de constatar que a boa música perdeu espaço em rádio e tevê. Simplesmente isso. Décadas atrás, Caetano Veloso e Milton Nascimento eram oferecidos à população na programação habitual da maioria das emissoras. Hoje, eles não cruzam nem perto.

Isso fica claro em um simples exercício proposto aqui. Caetano e Milton não foram citados gratuitamente. Eles estão nas músicas de abertura das novelas das 9 da Globo que agora trocam o bastão: A Lei do Amor, com Milton Nascimento e Dani Black, e A Força do Querer, com Caetano. O contraste é gritante. "Eu sou maior do que era antes / Estou melhor do que era ontem / Eu sou filho do mistério e do silêncio / Somente o tempo vai me revelar quem sou." É um alívio para a alma. Por que músicas assim só tocam em novelas, e não na programação habitual em rádio e tevê oferecida à população? Por que as novelas escolhem estas músicas, e não a tendência massificada de nossos dias? Ainda bem, mas será uma confissão? Vem aí uma série das 11, que escolheu uma música do Secos & Molhados dos Anos 70. A novela das 7 vai de Pitty. Há muitos anos, suspeito: há uma relação direta entre o embrutecimento progressivo e a música oferecida à população.

Pensar no embrutecimento da alma foi algo inevitável diante da cena bárbara do assassinato do rapaz argentino no Rio de Janeiro com um soco fatal ou do sofrimento lancinante dos pais da menina Maria Eduarda, 13 anos, morta por uma bala perdida dentro de uma escola também no Rio, enquanto dois policiais, ali ao lado, executavam dois homens no chão, tudo ao mesmo tempo. Há momentos em que a ficha do embrutecimento geral cai na nossa frente, a nos mostrar a que ponto chegamos. O embrutecimento das almas e dos ambientes tem relação direta. Então, a violência e a barbárie em estado puro passam a não ser mais estranhas.

 
 

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