"O maior desafio do ser humano é a sua baixa autoestima", afirma Eduardo Shinyashiki - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Entrevista27/03/2017 | 10h32Atualizada em 27/03/2017 | 10h32

"O maior desafio do ser humano é a sua baixa autoestima", afirma Eduardo Shinyashiki

Especialista em desenvolvimento das competências de liderança organizacional, educacional e pessoal esteve em Caxias no sábado

"O maior desafio do ser humano é a sua baixa autoestima", afirma Eduardo Shinyashiki Pedro Boschini/divulgação
Há três décadas prestando consultorias na área, Shinyashiki acredita que é, sim, possível viver como se quer viver Foto: Pedro Boschini / divulgação
Maristela Scheuer Deves
Maristela Scheuer Deves

maristela.deves@pioneiro.com

Você já parou para pensar como quer viver? Em caso positivo, traçou um plano para conseguir isso, ou simplesmente deixou a ideia de lado como se fosse impossível? E quantas vezes desistiu de algo por pensar que não tinha capacidade? Quantas vezes culpou a falta de tempo, de dinheiro, ou a crise por não ir atrás de seus sonhos?

Desconstruir essas desculpas que damos a nós mesmos para não evoluir faz parte, há três décadas, do trabalho realizado por Eduardo Shinyashiki, mestre em neuropsicologia e especialista em desenvolvimento das competências de liderança organizacional, educacional e pessoal.

— Talvez o maior desafio do ser humano seja sua baixa autoestima e sua baixa autoconfiança — avalia Shinyashiki, que esteve em Caxias do Sul no sábado justamente para ministrar um seminário intitulado Viva Como Você Quer Viver.

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Palestrante reconhecido e autor de livros e artigos sobre como ampliar o poder pessoal e a autoliderança, o especialista conversou com o Pioneiro e destacou que muitas vezes o que falta é uma percepção das próprias capacidades e talentos.

— Imagina um professor de história: ele se define como um professor de história, ou poderia se definir como um especialista do ser humano ao longo dos séculos no ponto de liderança, valores humanos e estratégias de vida, porque ser esse especialista é exatamente o ele aprendeu na faculdade — exemplifica.

Por essa perspectiva, acrescenta, tal profissional é bom não apenas para a educação, mas sim excelente para fazer uma previsão de cenários para os empresários. Ao não se perceber como um especialista, porém, ele estaria se esquecendo de que pode oferecer mais.

Shinyashiki também combate a ideia de que a crise não permite progressos: ao contrário, ela pode ser uma ótima oportunidade para tirar as pessoas da sua zona de conforto. Porém, lembra que não é preciso esperar a tempestade chegar para tomar uma atitude.

— Muitas vezes as pessoas primeiro estão lidando com o prejuízo, para depois pensar em como reverter esse prejuízo. Adoro dizer: primeiro pense o que você pode fazer para construir a prosperidade.

Confira trechos da entrevista:

No contexto atual de crise, é realmente possível viver como se quer?
Shinyashiki:
Sim. Tudo o que necessita é fazer o seu plano, seu planejamento, e ter uma organização mental. O que é isso? Em alguns momentos, tem profissionais talentosos, e quando você pergunta a eles o que fazem, usam meia hora para falar. Eles têm competência, mas não a organização de dizer "o que eu faço, qual o resultado e qual o benefício que eu tenho", e isso acaba fazendo com que uma pessoa talentosa não seja percebida pelo seu entorno. Quem não consegue se organizar mentalmente parece que começa a perder a identidade de uma pessoa que pode realmente fazer a diferença. Então um profissional que tem competência e talento pode não ser percebido pelo mercado como alguém que detém o conteúdo capaz de fazer uma grande diferença. É nesse contexto que muitas vezes profissionais que têm um conhecimento vão se acomodando. E quando alguém se acomoda, o cenário o percebe justamente como alguém que tem um valor limitado. E nesse momento a frase "viva como você quer viver" acaba ficando secundária, isto é, eu tenho um sonho, mas não crio as condições para que esse sonho se torne uma realidade.

As pessoas estariam se autossabotando?

Exato. Tem uma garota que trabalha comigo e um dia eu perguntei pra ela, "Qual o teu sonho?" e ela me respondeu, "Eu adoraria ser enfermeira, mas é dessas coisas que a gente sonha e nunca vão se realizar". Eu disse, "opa, parou aí. Vamos fazer um plano: agora você vai sair mais cedo e vai fazer o teu supletivo. Quando você terminar, se quiser você vai fazer um técnico de enfermagem, eu vou até patrocinar esse curso para você. Se você quiser fazer faculdade, legal, então vamos prestar vestibular e fazer a faculdade". Ela tá terminando o supletivo. Esse às vezes é o ponto em que as próprias pessoas sabotam o seu sonho, e quando está sabotando o seu sonho ela tem um monte de justificativas de "por que não", mas vai esquecer de que tem também uma outra etapa importante na vida, justificar o "por que sim". O por que eu vou fazer isso, o quanto eu mereço isso.

Hoje se escuta muito que não se tem tempo. Como driblar isso?
Essa frase também é dita em relação a ter filhos, a se divertir, a ter prazer na vida. Ah, mas eu não tenho tempo para meus filhos, eu não tenho tempo para me divertir, eu não tenho tempo... O tempo passou a ser a maior justificativa do ser humano. Hoje, por exemplo, se a gente pensar, quantas possibilidades se tem para fazer um curso de especialização? Posso fazer um curso presencial, online, isso é, a justificativa deixou de ser o tempo, e sim a organização. Não é quanto tempo a gente tem, mas o que faz com o tempo que tem. Há quem diga "eu não tenho tempo", mas tem tempo para ficar sentado no sofá vendo televisão, para ver o que acontece no Facebook. Legal, bacana, dá uma olhadinha, mas não gaste tanto tempo fazendo uma coisa quando poderia usar esse tempo para fazer outra. E a segunda justificativa, que é a primeira para algumas pessoas, é "eu não tenho dinheiro". Imagine que não fosse para fazer uma especialização, uma coisa do gênero, e fosse a doença de um filho, que ele precisasse fazer uma cirurgia que o plano não cobre. A gente usaria a mesma justificativa? A gente dá um jeito, tem quem vai fazer docinho, salgadinho, ou vender produtos de beleza... Ou seja, às vezes os recursos e o sucesso vão ser construídos fora do horário de trabalho. As pessoas se permitem muito justificar e esquecem de que tem coisas que são prioridade. 

E quais são essas prioridades?
Realização, felicidade, realização, prazer, são prioridades supremas. Muitas vezes as pessoas dizem assim: "eu passo mais tempo lamentando aquilo que eu não estou vivendo do que me comprometendo em viver aquilo que eu desejo". Há quem tenha um relacionamento muito bacana, mas de tanto colocar a atenção na escassez, na falta, na carência, se esquece que vai detonar esse relacionamento simplesmente por não se comprometer em sair da rotina. Da mesma forma que há profissionais que só vão se dar conta de que poderiam ter investido na sua carreira quando forem demitidos. Porque até então, vão ficar ridicularizando todos os cursos que a empresa os convidou a fazer: "besteira", "eu vou perder meu tempo"... E quando forem demitidos, vão perceber que aquilo era uma oportunidade. 

Na atual crise, aliás, as demissões são muito frequentes. É possível transformar a própria demissão numa oportunidade?
Com toda a certeza. Muitos profissionais se acomodaram, e quando passam por esse susto, começam a perceber que existe uma outra possibilidade. E aí a pessoa vai usar o talento que não estava usando, que estava se acomodando em não usar. Nesse momento parece que só tem uma possibilidade de dar certo. E ele faz, movimenta mundos e fundos, e dá certo. Às vezes, a vida puxa o tapete de alguém que está muito acomodado e faz com que perceba que ele é mais, que a vida é mais, que ele tem condições para transformar as adversidades em resultados significativos.

Há uma idade para fazer planos?
Eu costumo dizer que existem algumas dinâmicas. Por exemplo, até os 30 anos, a pessoa tem muita disposição, muita energia para gastar. Então se tiver de virar a noite, ela vai virar a noite, passar uma semana ou um mês trabalhando direto e dormindo pouco. Essa é uma fase em que as pessoas têm energia para fazer movimentar o cenário. Esse é o ponto que prepara para a fase seguinte, de estruturação, em que já começo a desenvolver ainda mais forte a minha capacidade de gerenciar projetos. Eu compreendo como as coisas funcionam e começo a trabalhar nos atalhos, isto é, como economizar tempo e energia. Aos 50, é uma fase importante, e que a pessoa já deveria ter feito: ter mais domínio da prosperidade, como fazer a roda da fortuna girar sem que ela esteja empurrando. Há gente aos 50 ainda gastando energia desesperadamente. Alguns vão passar a vida inteira sem refletir como montar uma empresa, como usar a expertise desenvolvida ao longo de uma vida para ganhar dinheiro. 

E como fazer isso?
Por exemplo, quantos metalúrgicos existem na região que passaram a vida inteira fazendo isso, e depois que se aposentam não têm nada? E você fala, nossa, como alguém que passou tanto tempo dentro de um cenário ainda não montou o seu negócio? E aí entra a lição que os colonos trouxeram, que é nessa hora que a gente precisa se juntar. Vamos ver profissionais muito competentes mas que em momento algum se aproximaram para fazer alguma coisa juntos. Nesse momento que as vezes a gente vê uma pessoa que trabalhou a vida inteira como encanador e continua pensando como encanador, não como alguém que conhece muito bem o que fazer e vai ser aquela pessoa que faz orçamento, tem relacionamento com todos os clientes e ensina os garotos novos a fazer o serviço de encanador. Muitas vezes as pessoas se esquecem (disso) e acreditam que têm de trabalhar duro até o último dia da vida. É preciso saber fazer com que a roda da fortuna, a roda da felicidade gire sem que se precise ficar empurrando ela. 

Então às vezes as pessoas não enxergam a si mesmas?
Tem um péssimo hábito do ser humano, que é a autocrítica, a autoexigência, a cobrança de perfeição. E muitas vezes essa autocrítica é invalidadora, desqualificadora, e faz com que aconteça uma distorção na percepção de si mesmo. É como se ela estivesse olhando e o tempo todo dizendo: vou fazer uma coisa e não vai dar certo. E daí ela não faz. Tem pessoas que a gente olha e diz, "nossa, ela é um talento". Aí você para para conversar com ela e ela não vai evidenciar esse talento, vai dizer, "ah, não, isso são seus olhos, você é uma pessoa muito generosa".

Não seria uma falsa modéstia?
Não, há pessoas que não acreditam mesmo em si. Elas não se reconhecem e não evidenciam o que têm de maravilhoso. Muitas vezes o trabalho maior que eu tenho como profissionais, até com executivos e empresários, é eles perceberem que têm muito mais do que acreditam. Talvez o maior desafio do ser humano seja sua baixa autoestima e sua baixa autoconfiança. Tem pessoas que vão chegar aos 70, 80 anos, e ainda não aprenderam a se dar valor, não acreditam nelas mesmas. Às vezes você tem um profissional se posicionando de uma forma coadjuvante, como uma sombra, não aceitando que tem um espaço na vida dele que às vezes nunca vai ser ocupado, que é o centro do palco, onde as luzes estão ligadas, esperando que ele tome a decisão de ocupar um dia nesse espaço. 

Isso em que área?
Em todas as áreas. Tem pessoas que, na área afetiva ou na social, olham para o outro e não olham para si mesmo. E na profissional, quantos se negam a possibilidade de ser reverenciados, reconhecidos, validados. Potencializam o sonho dos outros, mas não os seus. Então a importância de, primeiro, resgatar esse sentido de que se tem alguém que tem direito de realizar um sonho, essa pessoa sou eu. Esse primeiro momento é essencial. E começar a fazer uma coisa mais profunda, que é onde ela está e onde ela quer chegar. Então ela precisa desenvolver algumas coisas e criar um plano. Tem pessoas que vão estabelecer planos que nunca vão acontecer, e outras que vão estabelecer planos extremamente realizáveis. 

Isso não significa não poder sonhar alto, certo?
Exato. Ter sonhos grandes é perfeito. Só que a gente precisa ter a percepção de que do zero ao milhão tem um caminho. Precisamos estabelecer o primeiro passo para chegar no mil, depois na centena de mil, depois no milhão. E esse passo depende muito da pessoa ter esse olhar primeiro para si mesma. Porque nesse momento depende muito mais dela própria do que do cenário. 




 
 

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