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Jardins da cidadania26/11/2016 | 06h50Atualizada em 26/11/2016 | 06h50

Voluntários transformam paisagem e inserem beleza no cotidiano de Caxias

Diante de expressiva confusão e vandalismo no meio urbano, percebe-se que há pessoas dispostas em responder com atitudes sublimes

Voluntários transformam paisagem e inserem beleza no cotidiano de Caxias Roni Rigon/Agencia RBS
Nas ruas, embora as administrações realizem grande esforço para deixá-las limpas, alguns cidadãos relutam em colaborar na beleza natural Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

A  maturidade da consciência ambiental está condicionada nas leis jurídicas, nas políticas públicas, na educação familiar e também no ensino escolar. No entanto, os gestos de gratidão à natureza vivem a liberdade e o ânimo de contribuir com a harmonia sem limites. Nas cidades de médio e grande porte, as belezas dos jardins ou das flores estão cada vez mais restritas aos parques e às praças. Por outro lado, nas ruas, embora as administrações realizem grande esforço para deixá-las limpas, alguns cidadãos relutam em colaborar na beleza natural.

Diante de expressiva confusão e vandalismo no meio urbano, percebe-se que há pessoas dispostas em responder com atitudes sublimes. O propósito de plantar flores ou criar jardins em espaços das vias públicas, em vez de destruir,  denota grandeza na alma humana. Em Caxias do Sul, a disposição da jardinagem é evidente e salutar. Não se trata de algo imposto, mas uma vontade pessoal que vem  de costumes familiares, originando a sensibilidade voluntária de poder plantar, regar, cultivar e apreciar o florescer das plantas nas ruas, calçadas e logradouros públicos.

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A riqueza desta intervenção supera aquela ideia de que somente a administração pública deva ser o responsável direto pelo plantio de flores em espaços localizados fora do nosso quintal. A Constituição Federal, em seu Art. 225, enfatiza que todos têm o direito ao meio ambiente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial a qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e a coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

E o agradável exemplo  da coletividade vem dos mais variados bairros. Numa das extensões da Avenida Júlio de Castilhos, bairro Cinquentenário,  um canteiro  recebeu atenção especial de uma moradora vizinha. A rotina consiste em plantar flores e admirar permanentemente o resultado colorido e perfumado.

Em Galópolis, Marcia Colombo Calai, 44, procurou transformar o paisagem de sua casa por completo. Do outro da lado da Rua Angelo Basso, Marcia limpou o terreno abandonado da via pública e preencheu com inúmeras variedades de flores. Neste contexto, impossível não fazer referência à principal  rua da Universidade de Caxias do Sul. Ali, as rótulas exibem espetáculos floridos da intervenção inteligente do homem.

A estética e a limpeza das ruas encantam alunos, professores e visitantes. Nos finais de semana, os jardins naturais da UCS acolhem  noivos, formandos e aniversariantes  na produção de seus books fotográficos.

Ela foi criada na terra

Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

Plantar flores representa uma terapia ocupacional cheia de graça para Joana Gasparetto Maccari, 83 anos. Nascida no interior de Caxias do Sul, adquiriu na infância o hábito de respeitar o meio ambiente com o plantio de flores.  Joana teve que se afastar dos jardins para cuidar da sua família e a administração de uma olaria.Atualmente, com vigor  e disposição, retornou a fazer os jardins que aprendeu na infância.  Defronte à sua residência no bairro Cinquentenário, na Avenida Júlio de Castilhos,  Joana zela por um canteiro. Ali é possível apreciar todos tipos de flores, com destaque para os cravos e rosa, além de árvores frutíferas.

Joana aprecia o contato com a natureza. Afirma que foi "criada na terra", e que seu amor pelas flores é uma bênção. Por outro lado, a cidade ganha uma voluntária extremamente dedicada com a beleza e limpeza urbana. Joana, com seu trabalho, agrega obediência aos preceitos constitucionais relativos ao meio ambiente, anteriormente citado.

Flores na Rua Angelo Basso

Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

Márcia Colombo Calai teria todos os motivos para deixar de seu uma voluntária em defesa do meio ambiente. Sua semana atribulada no ramo metalúrgico e os cuidados com sua própria vida pessoal e a família não impediram em dedicar boa parcela de suas horas de final de semana zelando por um jardim entre a Rua Angelo Basso e o Arroio Pinhal. A área abandonada recebeu atenção especial e colorido de todos os tipos de flores. Além disso, Márcia investe recursos próprios para comprar as mudas em floriculturas, algo que facilita o trabalho.

O marido Nelson Calai, 47 anos, que mora nesta via há três anos, comunga com este capricho. O impacto desta intervenção é positivo. Quem passa por ali descansa o olhar no canteiro e sentir a fragrância das flores, e, naturalmente, elogiar o capricho do casal.  Nelson tem a preferência pela flor boca-de-leão. Neste jardim, pode ser vistos as variedades de margaridas, amor perfeito, crista de galo, gerânio e cravos. Neste ano, foram investidos R$ 500 em mudas.

Jardins na UCS

Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

Universidade de Caxias do Sul adotou em seu campus não apenas jardins, mas um projeto paisagístico que valoriza canteiros e flores de forma permanente. Cesar Lorandi,  coordenador da zeladoria da instituição, salienta que o trabalho aproveita orientações dos cursos de Biologia e Agronomia. O aporte dos laboratórios realizam análise da terra, adubação e desenvolvimento das plantas.
Lorandi administra um complexo na Rua Francisco Getúlio Vargas que compreende duas rótulas e canteiros a margem da via.  Seis jardineiros e três tratores integram a estrutura que passa o ano cuidando do plantio e manutenção das flores.

O jardineiro Roberto Toscan, 62 anos, trabalha há sete na UCS. Sua afinidade com as flores vem desde menino, quando aprendeu a cultivar com seus pais no interior de Flores da Cunha. Para Toscan e Lorandi, cuidar dos jardins da UCS é um trabalho exigente e fascinante.  O resultado disto é poder ver as pessoas admirando os canteiros com alegria e encantamento. Nos finais de semana, o lugar transforma-se num endereço mágico para muitos noivos que registram seus momentos maravilhosos, comentam Toscan e Lorandi com satisfação...e emoção.

No momento, a UCS não produz mais flores, cujas sementes eram importada da Holanda. Hoje as mudas são adquiridas na  floricultura Santa Úrsula. Nas rótulas percebe-se a variedade Impatiens, cuja variedade é conhecida popularmente como beijo, maria-sem-vergonha e não-me-toques. Lorandi explica que esta flor sofre com a geada mas brota na primavera. Sua folhagem frondosa exige plantio que obedeça o espaçamento físico.

Vale a Pena ter Um Jardim?

Foto: Dulce Helfer / Agencia RBS

O ambientalista José Lutzenberger (1926/2002) participou ativamente em defesa do meio ambiente. Quando alertava para os perigos da poluição, sua retórica era abrangente e contundente. Com franqueza e desenvoltura atingia a problemática do lixo urbano, hospitalar, agrotóxicos, uso do solo, inseticidas domésticos, agrotóxicos, etc.

No livro Manual de Ecologia / Do Jardim ao Poder, editado em 2004, foi compilado um artigo escrito por Lutzenberger em 1973: Em Vale A Pena Ter Um Jardim?  o ecologista mostra sua feição humana e pacífica na tolerância com a agressividade do homem, propondo, insinuando, incitando-o a desenvolver uma mentalidade ecológica  harmoniosa.

Lutzenberger interpretava sua realidade criticando as sombras do progresso, fenômeno que desencadeava uma corrida grotesca que nos tornava cada dia mais neuróticos e desequilibrados. Para isto, implorava de que necessitávamos de compensações. E o jardim poderia ser uma dessas compensações. Além de contribuir substancialmente para a saúde do corpo e da alma, a jardinagem poderá constituir ocupação de grande valor educativo.

O ambientalista em vida provou que sua posição estava afastada do discurso fácil. Numa área degradada pela exploração do basalto, constituiu seu jardim: A Fundação Gaia foi concebida para fomentar tecnologias socialmente compatíveis, como a agricultura regenerativa, medicina natural, saneamento alternativo e manejo sustentável da terra. A sede localizada em Pântano Grande (RS), ainda evidencia-se pelas diversas espécies silvestres e a biodiversidade. O local é uma referência para a educação ambiental.


 
 

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