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Opinião19/11/2016 | 06h20Atualizada em 19/11/2016 | 06h20

Tríssia Ordovás Sartori: a pós-verdade dos relacionamentos

Poderia supor que esse meu momento de iluminação, a epifania na sala de estar, tinha algo a ver com isso

Tríssia Ordovás Sartori: a pós-verdade dos relacionamentos Viviane Pasqual / Divulgação/Divulgação
Foto: Viviane Pasqual / Divulgação / Divulgação
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com


Ele me disse, assim, que era tudo mentira, que aquilo nunca tinha acontecido e, por isso, eu não devia acreditar.

Mas como não acreditar no que parecia tão óbvio — e que dava para notar ao perceber que ele fugia do meu olhar, enquanto eu falava. Isso, sim, era  bem mais estranho, essa falta de cumplicidade instaurada depois de tantos anos de convívio, as mãos que já não sentiam a menor vontade de se entrelaçar, a desconfortável proximidade entre os corpos.

"Quando foi mesmo que isso começou?", pensei. "Aonde foi que a gente se perdeu?", divaguei, tentando acessar meu inconsciente.

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Mas logo a realidade imperativa colocou-me de volta àquele balcão que nos dividia — literal e metaforicamente. Tentei lembrar de outras meias-verdades (ou meias-mentiras) proferidas em diferentes momentos, todas aquelas promessas de eternidade que viraram efêmeras. Especialmente aquelas que pareciam para sempre. "Nunca mais vou ser tão completo", "não sei viver sem ti", "quero te fazer feliz para sempre", "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença"... Tudo parecia tão possível, tão real, que sequer imaginei estar ponderando sobre o imponderável. Frases lindas, esvaziadas de sentido e significado.

Talvez por isso todas aquelas explicações dele não conseguissem mais me convencer. Lá pelas tantas, simplesmente assenti com a cabeça, como se sinalizasse: ok, vamos parar por aqui. Ele fez que entendeu e se calou. Para sempre.

Consegui ainda lembrar do fato de a Oxford Dictionaries — departamento da universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários — ter eleito a pós-verdade (ou post-truth, no original, já que a eleição é para a língua inglesa) como a palavra do ano. Poderia supor que o meu momento de iluminação, a epifania na sala de estar, tinha algo a ver com isso.

Não exatamente, mas o termo é um tanto quanto sugestivo.

Pós-verdade é um adjetivo "que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais", foi usado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich e cresceu 2.000% em 2016. Tem sido usado com mais força nos discursos políticos — da eleição de Donald Trump ao Brexit —, mostrando que a verdade está perdendo a importância nos debates políticos. Plataformas como Facebook, Twitter e Whatsapp favorecem a replicação de boatos e mentiras.

Com a mente fervilhando, tento fazer conexões mais pessoais: existiria, também, a pós-verdade dos relacionamentos? Essas frases que escutamos durante tanto tempo e passamos a acreditar absolutamente nelas, mas só até perceber — com uma dose de tristeza — que elas eram só possíveis evocações de lembranças para a posteridade.

 
 

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