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Opinião28/11/2016 | 08h52Atualizada em 28/11/2016 | 08h52

Marcos Kirst: o legado das areias

Restou o silêncio da imponência perdida servindo de pano de fundo para selfies 

Ozimândias era o apelido grego conferido ao faraó egípcio Ramsés II, que comandou o Egito durante mais de 60 anos (um dos mais longos reinados), de 1279 a 1213 a.C. Poderosíssimo, dizia-se filho de deuses, deitava e rolava, mandava e era obedecido. Botou abaixo os monumentos que evocavam a memória e os feitos de seus antecessores e usou as pedras para erigir dezenas de monumentos novos em homenagem a si mesmo. Muitos deles (a maioria em fragmentos) ainda podem ser visitados pelos turistas, especialmente em Tebas e no Vale dos Reis.

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A pergunta que grita ao vento desde os desertos do Egito, no entanto, é: passados três milênios, o que restou de todo o poder, da glória, do esplendor, da empáfia, da arrogância e da soberba de Ozimândias? Pó. Restou o pó das estátuas quebradas, dos monumentos pela metade fustigados pela areia, pelo vento e pelo sol. Restou a sombra benfazeja que as agora meia-estátuas proporcionam aos camelos que cruzam o deserto. Restou o silêncio da imponência perdida servindo de pano de fundo para as selfies de viajantes que pouco ou nada sabiam de sua existência antes de pisarem ali, e que de novo a esquecerão nas brumas da memória assim que seguirem adiante. Pobre Ozimândias! Não imaginava que a soberba jamais resiste ao tempo.

O poeta inglês Percy Bysshe Shelley (1792 – 1822) imortalizou seu espanto com a derrocada da arrogância pela passagem do tempo, representada por Ramsés II e suas estátuas caídas, compondo o soneto intitulado "Ozimândias", que diz assim (na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos): "Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante:/ Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,/ Acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,/ Afundando na areia, um rosto já quebrado,/ De lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante:/ Mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia/ Quantas paixões lá sobrevivem, nos fragmentos,/ A mão que as imitava e ao peito que as nutria/ No pedestal estas palavras notareis:/ ¿Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis:/ Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!¿/ Nada subsiste ali. Em torno à derrocada/ Da ruína colossal, a areia ilimitada/ Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada."

A areia é o senhor do tempo, Ozimândias. Glória, poder, soberba e arrogância afundam inexoravelmente nela, mais dia, menos dia. Assim nos ensinam os artistas como Shelley e os arquitetos e escultores de três mil anos atrás, cujas obras, elas sim, mesmo amputadas, permanecem e se fazem ver, para nos lembrar que, no final, voltamos todos ao pó que nos molda e iguala.

 
 

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