Gilmar Marcílio: extravagâncias virtuais - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião11/11/2016 | 09h01Atualizada em 11/11/2016 | 09h01

Gilmar Marcílio: extravagâncias virtuais

Estamos nos encaminhando para um futuro em que a poesia rescende a plástico e metal

Novidades no mundo da moda. Comemoremos. Leio que a grande estrela dos mais recentes desfiles não é a predominância de uma nova cor, a descoberta de um estilista genial e muito menos de uma top model, que em menos de um mês estampará as capas das principais revistas do gênero. O que tem causado frisson nos experts e, literalmente, ditadores de tendências, é a introdução da tecnologia na nossa indumentária cotidiana. Exemplos: tênis autoamarráveis, cintos que projetam imagens de acordo com as emoções das pessoas que os estão usando, anéis que abrem portas e fazem pagamentos, jaquetas conectadas ao celular e... ufa! São tantas as criações que seria facilmente possível preencher uma página. Tudo isso pode ser resumido numa frase proferida por um crítico: "O chip é o novo paetê." O que pensar disso tudo? A ala mais avant garde exulta. Os conservadores discretos, como eu, olham isso com certo ceticismo. É bom saber aproveitar o que nos é oferecido, mas deixando o freio levemente puxado. O que me parece mais preocupante, nesta história toda, é que estamos terceirizando aquilo que antes fazia parte das nossas "obrigações cotidianas". Substituir as atividades pela simples leitura de um visor não é a atitude mais brilhante. Em breve precisaremos apenas respirar – ou nem mais isso. O resto deixaremos a cargo da inteligência artificial. Viva a inércia!

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Tentei minimizar esses pensamentos negativos, lembrando que em nossa recente trajetória não dispúnhamos das mínimas condições de higiene e a expressão direitos humanos causaria estranhamento em todos. Principalmente em quem detinha o poder. Ah, sem contar que a anestesia (minha invenção preferida) estava longe de habitar os poucos hospitais existentes. Enfim, talvez haja motivos para exultar moderadamente por todo o empenho em transformar a vida num passeio prazeroso. Quem já assistiu à magnífica série britânica Black Mirror sabe que nem tudo são flores nesse jardim de aparente beleza. Estamos nos encaminhando para um futuro em que a poesia rescende a plástico e metal. E em que tudo pode ser resolvido pelo simples toque numa tela. No meu mundo, no entanto, não quero abolir jamais a palavra falhar. Pois é ela, justamente, a que nos devolve o sentido de humildade cada dia mais distante de nós.

Podemos ser os vencedores, mas também os reféns. Poucas coisas são mais perigosas do que deixar de lado a dúvida e entregar-se passivamente ao que nos dizem ser o melhor. Eu recebo com prudência essas notícias, lembrando sempre que são uma paisagem efêmera num universo que nos legou valores bem mais substanciais. Um chip? Sim, mas na cabeceira da cama deixarei Montaigne, Platão, Sêneca, Adélia Prado, Quintana...


 
 

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