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Opinião10/11/2016 | 09h01Atualizada em 10/11/2016 | 09h01

Francisco Michielin: não se matam as flores

Nós mesmos, cidadãos anônimos e comuns, aceitamos essa escalada criminosa como fato natural do conturbado mundo atual

Francisco Michielin
Francisco Michielin

franmcf@terra.com.br

Ausente da cidade quando Fernando Webber foi brutal e friamente assassinado, só soube dias depois. Fiquei profundamente chocado e, por alguns minutos, incapaz de qualquer reação. Atônito, petrificado, percebi lágrimas rolando pela minha face. Não quis e não podia acreditar. Eu o conheci ainda menino, com grave problema cardíaco e órfão de mãe. Desde então até minha aposentadoria fui o seu médico, quase como um tutor, seu confidente e seu conselheiro. E ele honrou a mim e a minha esposa duplamente: primeiro, para apadrinharmos o seu casamento e, mais adiante, batizando sua filhinha com o nome da Elisabete.

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Um rapaz lutador, guerreiro, artesão floral, dotado de méritos e predicados festejados em todo o Brasil. Um dos melhores floristas nacionais. Por aqui colecionou admiradores e uma legião de amigos. A última vez que nos reencontramos, depois de longo hiato, foi exatamente há um mês, entremeados por abraços e saudosas lembranças. Talvez, sem a gente adivinhar, fosse a cerimônia de despedida daquele que fazia as flores cantar e encantar.

A morte do Fernando é mais uma daquelas rotuladas como "banalização do crime". Cansei disso. Eu estou não só revoltado como enojado. Porque, se o crime se banalizou não foi de graça. Há culpados. Grandes culpados. Nós mesmos, cidadãos anônimos e comuns, aceitamos essa escalada criminosa como fato natural do conturbado mundo atual. Vá lá. Mas, até quando e até onde vai o nosso poder de indignação? Acaso, seremos nós os próximos? Por quantos ainda iremos chorar?

E o que se dizer das autoridades? Competentes e responsáveis é que elas não são. Alienadas, indecorosas e cínicas, sem dúvida. Lamentam publicamente, dão entrevistas impactantes e, em seus gabinetes, não tomam a menor iniciativa. Não estão nem aí. Talvez, quando um dos seus tomar um tiro na cabeça ou no peito, testemunharemos o despertar dos que desgovernam esta república sem lei e sem ordem, na qual se assassinam mais pessoas do que nas mais sangrentas guerras. É o que dá ter uma laia de políticos insensíveis e insensatos!

Fernando Webber faleceu jovem, com sua paixão, no auge da carreira e da merecida fama. Relembro que, ainda nos seus 17 anos uma das válvulas do seu coração entrou em colapso. E sua vida corria sérios riscos. Uma vez operado, nunca mais teve problemas, podendo usufruir uma vida honesta, sadia e feliz. Ele sentia-se satisfeito e protegido por continuar aos cuidados dos meus filhos, enfatizando que éramos parte de sua família. Que pena, menino Fernando! Vítima — mais uma! — da insanidade de governantes que só sabem sugar e beber o nosso sangue. Mas, enquanto as flores haverão de murchar nos túmulos desses fariseus, aquelas belíssimas e ornamentais, tão amadas pelo Fernando jamais irão fenecer, floridas para sempre.

 
 

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