Ciro Fabres: Fidel e os nossos dias - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

Opinião30/11/2016 | 09h01Atualizada em 30/11/2016 | 09h01

Ciro Fabres: Fidel e os nossos dias

O que explica Fidel era relativamente comum na segunda metade do século passado

Fidel foi, antes de mais nada, uma pessoa, como todas as demais, com todas as contradições que envolvem a espécie. Contradições nos tornam humanos, assim como as imperfeições. Não há como escapar dessa condição inalienável. Fidel viveu, portanto, com erros, acertos, dúvidas e convicções, que o fizeram exercitar suas escolhas, e deu no que deu.

Fidel foi mediado fortemente pelo contexto, pelas condições conjunturais. Um homem é ele e suas circunstâncias, já vaticinava o pensador espanhol Norberto y Gasset. E as circunstâncias de Fidel — ou de qualquer pessoa — foram a conjuntura da época, às quais agregou o carisma e as escolhas pessoais, para ser o que foi e despertar amor e ódio, que perpassaram décadas, e assim prosseguirá.

Essas paixões e ódios que Fidel despertou embaçam a lucidez a tal ponto que, no raciocínio geral, Fidel é apenas metade do que foi. É ofensivo à história e à razão negar a importância objetiva das conquistas da educação e da saúde cubanas na vida das pessoas. Da mesma forma, afronta os fatos desconhecer que se tornou um tirano que suprimiu liberdades com perseguições e mortes. Ou que, na condição de líder, submeteu seu país, ainda que exposto a um embargo sem lógica, a um atraso econômico evidente. Tudo isso é Fidel.

Leia mais
Ciro Fabres: tempos excepcionais
Marcos Kirst: o legado das areias
Gilmar Marcílio: contra ti

O âmago da questão Fidel estará em suas motivações. Por que Fidel fez o que fez, foi o líder que foi? Há pessoas que, por nunca terem experimentado determinados sentimentos e experiências, decretam a inviabilidade deles. Por exemplo, sentenciam sobre a impossibilidade do desinteresse e da generosidade. Para elas, para todos os atos deve haver um interesse mesquinho que os explique. Poucos comportamentos são tão presunçosos e soberbos, pois se pretendem detentores do saber de todas as razões.

O contexto da época, que transitava entre conceitos como guerra fria, imperialismo, revolução, luta de classes muito mais aguda e menos difusa, submeteu Fidel às condições da chamada "real politik" própria daquele momento. E delas, do enfrentamento das questões políticas da vida real, ele não escapou, atropelando direitos e liberdades, até mesmo vidas em nome da política, e assim não é possível.

O que explica Fidel e sua trajetória era relativamente comum na segunda metade do século passado. Movido por ideais românticos e generosos de mais igualdade — sim, havia, e sim, são possíveis e nem tão raros —, atracou-se no mundo da política real, onde havia poderosos adversários estratégicos, com os recursos habituais da época. São contradições terríveis, universos inconciliáveis.

Mas ideais românticos não deveriam sucumbir nunca. São a escolha essencial. Esta é a grande perda dos dias de hoje.

 

 
 

Siga o Pioneiro no Twitter

  • pioneiroonline

    pioneiroonline

    Pioneiro.comEncontro de fuscas em Caxias, neste domingo, deve reunir 500 exemplares https://t.co/echSI8VhVX #pioneirohá 6 horas Retweet
  • pioneiroonline

    pioneiroonline

    Pioneiro.comColisão frontal resulta em duas mortes na ERS-324, entre Nova Araçá e Paraí https://t.co/uZ47daoAV3 #pioneirohá 7 horas Retweet

Veja também

Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros