Adriana Antunes: entre varais - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião08/11/2016 | 09h01Atualizada em 08/11/2016 | 09h01

Adriana Antunes: entre varais

Das metáforas das roupas estendidas ao sol e nós mesmos

Amo devagar quando o sol desponta quente no verão. O amor ter cinco dedos em cada mão. Fecho os olhos e deixo o calor me beijar. Quantos já enlouqueceram por arderem sem saber? Uma bola de fogo se acende no céu acordando as cortinas e despindo pijamas. Tenho um talento doloroso para sentir. Quem não tem? Sou feita de húmus e silêncios. Carrego buracos e ossos das vezes que chorei. Agora subo os degraus, descalça. Toco na madeira. Sinto o cheiro das flores que desabrocham amaciadas pelo sol matinal. Abro a torneira e mergulho os braços na água que jorra, parindo o oxigênio. Mergulho a cabeça. Deixo os cabelos nadarem em direção a um mar que não me pertence. Um fio de suor desce pelas omoplatas. Sou eu e não sou. Preciso ser?

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Algumas lembranças me perseguem e são salgadas como o suor. Esfrego os dedos nas têmporas. Da cabeça nascem flores e veneno. O vento sopra quente me roubando da entrega, apressa-te, é o que ele me diz, apressa-te. Tenho os dedos aturdidos, mãos ansiosas, pés nervosos. Sou sopro e desvisto a roupa que me cobre. O sol cresce ainda mais, lavrando o mundo, cerrado, duro e doloroso. Meu olhar te alcança, íngreme, sobre a grama. Te observo pelas entrelinhas dos braços. Dou pulmões à vida. Perdi o medo de gritar. Aprendi a rimar nascimento e morte. Amo devagar quando o sol desponta quente no verão, por que as manhãs são plenas de instantes e no voo dos pássaros localizo os pontos cardeais.

No verão não há sombra de sinais. Torço nossas roupas e estendo em varais plenos de luz. Roupas cheias de respiração. Limpas, novas e embebidas do azul que nos acolhe. Dê-me um nome e não serei mais eu, palavra-coisa, boca sem idioma. Somos água, música e poesia. Guardo um talento estranho que ajuda a me mover no caos. Sou o equívoco dos peixes e enquanto lavo as roupas me liberto do peso das traças. A sujeira escorre pelo desvão do mundo e depois de muito rolar há de se encontrar com as águas originais. Preencho o varal que resiste a ferocidade do dia que queima desde cedo. Sento ao seu lado e deixo a claridade dos lençóis cobrir nossos corpos e sem perceber nos transformamos em minúsculas raízes do sol. Dormiremos um sono de folhas diante da miséria dos minutos e quando finalmente despertarmos, será meio dia e as roupas estarão secas.    


 
 

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