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Opinião22/11/2016 | 09h00Atualizada em 22/11/2016 | 09h33

Adriana Antunes: a casa onde brinquei nas férias não existe mais

Adultos sempre acham que sabem de tudo, que já viveram tudo

Mais algumas semanas e as aulas terão acabado. Quando criança, não via a hora de terminar a escola. Fim de ano era sinônimo de viagem. Nós íamos para a colônia, onde meus nonos moravam. Enquanto parte dos amigos iam para a praia (eu só fui conhecer a praia adolescente), pegávamos um ônibus em Caxias e desembarcávamos na rodoviária de São José do Ouro. Lá alguém nos punha dentro de um jipe e nos largava na Encruzilhada do Facão. Nunca soube a origem do nome do lugar, mas imagino que se deva a algum feito. Quando chegávamos, meu nono nos esperava com dois cavalos. Descíamos as malas de cima do jipe e as colocávamos para cima do lombo dos bichos. Assim, íamos a trote para a casa embrenhada entre o milharal, as uvas e as vacas. Minha nona ficava na porta nos esperando, com uma panela cheinha de gamberi, uma espécie de caranguejo de água doce, que eu simplesmente adorava com polenta.

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Minha infância, nestes momentos era divida em três partes: o rio dos gamberis, o pátio com suas galinhas e os bichos de pé. Sim, por que eu era campeã em pegar bichos de pé. Uma vez meu nono tirou doze de um pé só. Comemoramos o feito comendo um caranguejinho para cada bicho tirado. Era um jeito de conter a dor e as lágrimas causadas pelo sal grosso que ele colocava dentro de cada machucado. Era para não inflamar, justificava-se, rindo. Sinto saudades do seu Fortunato, que morreu há 22 anos. Além dos caranguejos que cozinhavam até ficarem vermelhos, tinha a mortadela bolonhesa, defumada, que ele comprava toda vez que íamos. Ser a neta mais velha garantiu a minha porção de vida rural. Tive tempo de pisar aquele chão de barro, deitar-me na grama em noite de lua cheia, ver formigas levantando ao ar grãos de trigo, assustar-me com a fome dos porcos no fim da tarde, deparar-me com a tristeza de um ninho abandonado, observar a lágrima de resina escorrida de um pé de pessegueiro e pescar gamberis no rio gelado e limpo como a saudade.

A casa onde brinquei nas férias já não existe mais, mas ainda vivo nela quando chega todo fim de ano. Corro para lá, abro as janelas, deixo entrar sol, coloco os móveis para fora e faxino as lembranças de infância. Quando crescemos e nos tornamos adultos, ficamos chatos. Adultos sempre acham que sabem de tudo, que já viveram tudo. Claro que a criança que fui não viu a paisagem como eu descrevo agora, ela era a própria paisagem. Por anos, meus melhores amigos foram um cavalo cego, um pé de chorão salgueiro e meu nono. Por isso, todo domingo vou à casa da nona, não por que ela precisa de companhia, mas por que eu preciso lembrar-me da criança feliz que fui.

 
 

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