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Hip Hop10/10/2016 | 08h02Atualizada em 10/10/2016 | 08h03

MV Bill analisa o percurso do rap no Brasil e questiona novas opções

De passagem por Caxias, rapper carioca visitou presídio do Apanhador

MV Bill analisa o percurso do rap no Brasil e questiona novas opções Carlo Locatelli/Divulgação
Foto: Carlo Locatelli / Divulgação

O grande inimigo do homem talvez seja o próprio homem. O que segrega, julga, trancafia e mata a possibilidade da esperança. Há dez anos, quando lançou o livro e documentário Falcão – Meninos do Tráfico, o rapper carioca MV Bill alertava para a possível morte do futuro de uma geração. Não só no Rio, no Brasil. Para fazer frente a uma realidade que, hoje, acredita ter piorado, ele vem descrevendo esta vida instável em rimas. Bill acredita na educação pela cultura mesmo para os que vacilaram e estão, hoje, cumprindo pena em sistemas carcerários do país. Na sexta-feira, quando passou por Caxias para um show, visitou detentos do Apanhador. Contrariando o senso dos que insistem em segregar, Bill acredita que, ao cantar um verso, dar um alô e um abraço, sinaliza que há vida além das grades e que ela pode, sim, ser reinventada. Este é o seu discurso cidadão, sua fé. Na entrevista que segue, ele desdobra estas ideias em torno da potência de vida que o hip hop sinaliza.

Você sempre une cultura e politização?
Para mim tá tudo interligado. Tem artistas que conseguem ser uma coisa no palco e outra na pista, eu não. A realidade que eu vejo está muito colada nos versos que faço, nas coisas que eu canto. A realidade que eu vi neste presídio de Caxias é mais uma coisa que eu vou incluir na minha arte. 

Como você analisa sua militância através do rap?
Quando olho para trás, vejo que foi uma caminhada de muitos obstáculos, mas também vitorioso do ponto de vista de quem poderia ter ficado no meio do caminho. Sentir medo em vários momentos foi uma forma de salvação. Muitos dos meus amigos mais corajosos acabaram perdendo suas vidas por que não tinham medo. E eu, justamente por ter medo de perder a vida muito cedo, acabei buscando outros caminhos. Conhecer o hip hop foi um fator fundamental na minha vida. O hip hop me mostrou que eu precisava de mais informação, de mais educação, para ser alguém no conjunto de uma regra que não me favorecia. O que o rap afirmou para o Brasil no sentido da inclusão social?Se você quiser saber o que acontecia no Brasil principalmente nos anos 1990, musicalmente, só o rap consegue contas esta história. Nenhum outro ritmo musical teria esta capacidade. O rap traçou o panorama certinho do que era o Brasil socialmente do início dos anos 1990 até o final dele. Aí começaram algumas mudanças, chegou mais gente, mais grupos, MCs, e a mensagem ficou um pouco mais pulverizada, diluída.

O gênero virou porta voz das periferias?
A contribuição é mais no sentido informativo. Nos anos 1990, o rap era o informativo da favela, um telejornal com as notícias que você não via na televisão. Durante muito tempo, o rap teve esta condição de informar as pessoas, independentemente da cor da pele, do local de onde elas vêm, de ser essa contribuição social. Tem gente que fala que o rap salvou vidas. Pode até ser, também. Ouço muito esses relatos, mas acho que o rap não pode ficar com esta carga de salvador de vidas. Pode ser que salve, mas nem sempre. Até por que não tem espaço para todo mundo fazer rap, não é um mercado tão aberto. E mesmo se tivesse, o Brasil não precisa de uma legião de jovens fazendo rap. Eles podem até curtir rap também. Mas a gente precisa formar novos médicos, advogados, uma nova classe política, uma nova classe empresarial. Se todos esses ouvirem rap também, sabendo da realidade brasileira, a gente certamente terá um país muito melhor daqui a algumas décadas.

Há algo falhando na cena?
Não acredito que sejam falhas, mas são opções. Alguns grupos tomam seus caminhos, fazem opções de carreira, que é natural em todos os ritmos musicais. Em todos estes ritmos que fizeram sucesso aqui no Brasil surgiu uma versão mais fofa, mais amena, mais maleável, mais flexível. No rap demorou até para surgir, mas hoje tem muitas dessas versões que são mais digeríveis. E tem aquela questão também de que quando a malcriação é feita pelo seu próprio filho é mais fácil de aceitar. Naquela época a malcriação era dos filhos dos outros, que somos nós.

Essa explosão de grupos e MCs acaba fugindo um pouco da essência do gênero? Há alguma autocrítica a ser feita?
Não sei se o coletivo pensa assim, mas eu acho que deveria ter uma autorreflexão, sim, uma autocrítica do tipo de rap que a gente vem fazendo. Não como censura, pois cada um é livre para fazer o que quiser, mas algumas coisas poderiam ser repensadas para não perder o foco sobre aquilo que se fez até aqui. O rap ficou conhecido por conta de sua pegada crítica, do seu poder de ser direto e não precisar ter a mesma sensatez que outros estilos musicais têm. Isso fez o rap ganhar respeito. Hoje, no programa sobre rap nacional que faço, quando penso em fazer algo temático, que fale de questões raciais, questões sociais, revolta popular, violência policial, na maioria das vezes eu preciso recorrer a músicas antigas, a músicas de um passado não tão distante, mas não de grupos atuais. Isso acaba demonstrando que a essência está se perdendo um pouco. E não é uma questão de mudança do Brasil, como se ele tivesse mudado e se precisasse falar de outras coisas. Não, o Brasil continua sinistro, em alguns lugares muito mais violentos do que antes, e talvez, nesse momento, a voz do rap se faz bem necessária para trazer um alento à população.

Quais são os desvios?
Acho que se perdeu um pouco a mão e tem um rap que desagrada muita gente. Fica muito na exaltação da maconha, como se fosse um elemento do hip hop. As músicas não falam muito do coletivo, não dã mais voz ao excluído, ficam num rap egocêntrico. Não digo que não seja importante falar de maconha. Mas veja como o Planet Hemp falava, contestando, discutindo a legalização, a descriminalização. Mas no rap ela tem aparecido mais como uma exaltação e uma apologia barata do que inteligente. Isso tem feito com que muita gente desgostar da cena atual e ficar com saudades do rap que falavam da realidade, do dia a dia, da indignação coletiva.

Dez anos depois de Falcão – Meninos do Tráfico, o que mudou no Brasil?
Diria que a gente perdeu uma grande oportunidade de repensar a vida dos jovens no país. Quando a gente chamou a atenção com o documentário, com os livros e com toda a discussão que foi levantada, tínhamos uma bola quicando. E se tivesse um pouco mais de vontade política, de mobilização da sociedade também, faz favelas e de todo mundo, a gente conseguiria dar um passo a mais. Infelizmente houve uma comoção momentânea, aquele momento passou, e o Brasil acabou piorando em tudo. Piorou na questão educacional, na saúde, os nossos políticos ficaram com qualidade pior, o racismo ficou mais exacerbado na internet, o ódio, a divisão de política partidária. Tudo isso que piora na sociedade acaba se refletindo no crime, que é reflexo da vida social. E aí o jovem que a gente retratou lá atrás hoje está mais violento, mais odioso, ele continua sendo o que mais mata e o que mais morre. Ou seja, a gente só tem um quadro pior.

O que acha do Brasil neste momento de eleições?
A gente vai precisar de muitas mudanças, muitas renovações. Eu, particularmente, não acredito em nada que está ai hoje na política, que é feita à base de coalizões com pessoas que discordam ideologicamente, que politicamente já foram adversários. Vai ser necessário desmontar todo o esquema que se tem hoje e refazer tudo do zero. Vai precisar criar coisas novas, partidos novos, pessoas que nunca se aventuraram na política, não políticos profissionais, políticos de carreira ou filhos de políticos de carreira, que tradicionalmente estão à frente do poder. Vai precisar pessoas do povo mesmo, pessoas que sofrem o dia a dia assumirem e mostrarem a necessidade de serviços públicos de qualidade. Isso poderá trazer uma mudança significativa para a política brasileira.

E a explosão do funk?
No Rio, o funk que impera é o pornográfico, que quase sugerem pedofilia, sexo grupal, é bem machista. Mas mesmo que o funk se encaminhasse para o lado da sensualidade, deveria ter um pouco de bom senso. Tem muitas músicas que não tem como ouvir num ambiente familiar. Eu teria vergonha de ouvir com minha mãe do lado. Não acho que deva ter uma ditadura, mas bom censo dos MCs. Tem muitas músicas que falam de sexo, de sexualidade, mas nenhum fala do uso de camisinha. E a onde o funk tem mais força, que é nas favelas, tem um número muito grande de meninas muito novas com gravidez indesejada. 

 
 

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