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Literatura13/10/2016 | 09h02Atualizada em 13/10/2016 | 09h02

Luiz Ruffato é o convidado desta quinta na Feira do Livro de Caxias

Para escritor, traduzido para 11 países, falta de leitura leva à intolerância

Luiz Ruffato é o convidado desta quinta na Feira do Livro de Caxias Tadeu Vilani/divulgação
"A gente vive o momento das celebridades, da espetacularização", analisa autor mineiro, que conversa com o público às 19h Foto: Tadeu Vilani / divulgação
Maristela Scheuer Deves
Maristela Scheuer Deves

maristela.deves@pioneiro.com

O mais interessante de ser leitor, para o escritor mineiro Luiz Ruffato, é que a leitura nos leva a perceber nossa própria ignorância. Sabendo-nos ignorantes, e permanecendo abertos, descobrimos coisas que não conhecíamos, sentindo um desconforto que estimula a reflexão. Algo muito necessário no cenário contemporâneo, no qual, cada vez mais, as pessoas professam certezas sobre tudo, sem antes pensar e relativizar, avalia o convidado do bate-papo desta quinta-feira na 32ª Feira do Livro de Caxias do Sul:

— Eu tenho muito medo das pessoas que têm certezas. Quem tem certeza não precisa mais procurar diálogo, a certeza é a base da ditadura — resume Ruffato, que conversa com o público às 19h, na Biblioteca Parque.

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Publicado em 11 países e recentemente premiado na Alemanha com o Prêmio Hermann Hesse, Ruffato é autor de romances, livros de contos, crônicas e poesia e de um livro infantil, mas se considera primordialmente um ficcionista: seu empenho literário, diz, é basicamente de romances e contos, os outros gêneros aconteceram "por acidente". No momento, ele se dedica a retrabalhar Inferno Provisório, lançado em cinco volumes, de 2005 a 2011, e que no final do ano vai ganhar nova edição, em volume único, pela Companhia das Letras. Também mantém uma coluna semanal no jornal El País.

Confira trechos da entrevista concedida ao Pioneiro:

Qual a importância de programações como essa em Caxias do Sul, na qual você vai ter contato direto com os leitores?
Nós, no Brasil, somos carentes de qualquer coisa ligada ao livro. Então eventos que têm o livro, a literatura, como centro das atenções, são extremamente importantes, exatamente por serem incomuns. O Rio Grande do Sul é um dos Estados que mais têm esse tipo de evento no Brasil, é disparada a diferença com o resto do país, onde geralmente se tem algo esporádico, num ano ou no outro, ou então muitas coisas nas capitais e pouca no interior. E isso se traduz na diferença que existe na qualidade da Educação no Rio Grande do Sul em relação ao resto do país. E mesmo na capacidade de pensar politicamente, porque não é só em termos de educação formal e sim de pensar o mundo, acaba-se tendo uma população muito mais engajada, no sentido de que sabe o que quer.

Em uma visita anterior a Caxias do Sul, em 2012, você falou que quanto mais lia, mais se descobria ignorante. Isso continua válido? Por quê?
Quanto mais eu sei, mais eu percebo a minha ignorância. Eu tenho muito medo das pessoas que têm certezas, sinceramente. A ditadura da certeza é um problema, porque quem tem certeza não precisa mais procurar diálogo. A certeza é a base da ditadura, ninguém precisa conversar com você porque não vai adiantar. Acho que o mais interessante de ser leitor é exatamente esse embate com sua própria ignorância. Ignorância no bom sentido, quer dizer, no sentido de você perceber que, se estiver aberto, vai estar sempre descobrindo coisas que não conhecia, sempre sendo colocado num lugar de desconforto, e isso é bom, porque num lugar de desconforto é onde você reflete sobre as coisas. Então se alguém vem e propõe uma ideia na qual você não tinha pensado, lhe obriga a pensar sobre aquilo, para você confirmar ou relativizar o que pensa. Eu acho que a pouca leitura do brasileiro, de nós, brasileiros, se reflete na intolerância, por exemplo, nas redes sociais. Essa intolerância advém do fato que essas pessoas têm certezas, porque elas não leem, quando você posta alguma coisa, leem o que querem ler, não o que está escrito. Elas já têm um pressuposto, partem para a leitura de antemão concordando ou discordando, não têm a humildade de ler o que está escrito e a partir daí, sim, concordar ou discordar. E eu acho que tem muito a ver com a falta de leitura do brasileiro; como a gente não lê, a gente tem certezas.

Como você avalia o cenário literário atual do Brasil, com as listas de mais vendidos lideradas por celebridades?

A gente vive o momento das celebridades, da espetacularização. Estamos confundindo entretenimento com literatura. Entretenimento é saudável, e é parte do mercado editorial, mas tem de ser levado como entretenimento. A partir do momento em que celebridades, fazendo entretenimento, viram literatos, viram escritores de literatura, aí realmente tem alguma coisa errada, porque são dois mundos diferentes, que conversam, mas que não são o mesmo. E o que eu percebo hoje é que a literatura brasileira está muito voltada para isso. Por exemplo, as pessoas conhecem muito mais o escritor do que a obra dele, vão muitas vezes a festivais literários e a feiras do livro pra ver o escritor, e não para lê-lo. E isso é uma pena, porque você quebra um pouco aquela relação saudável que deveria haver entre você e o livro; não é entre você e o escritor. Porque o que o escritor diz a respeito do seu livro é uma possibilidade de leitura, e aliás, quase sempre nem é a melhor leitura que se faz. O leitor tem de ter essa possibilidade de ler o livro com os seus olhos, com a sua experiência pessoal, com a sua história.

Como surgiu o blog Lendo os Clássicos, no qual fala de suas leituras de grandes obras da literatura nacional e universal?
Eu tenho tido um prazer imenso em escrever o blog. Eu o abri pra mim, era um registro pessoal, para que eu não perdesse essas leituras e pudesse rememorá-las daqui a alguns anos, lembrar o impacto que esses livros tiveram para mim. Fiquei surpreso ao perceber que cada vez mais pessoas têm entrado no blog, porque de alguma maneira algumas delas acabam indo buscar os livros e eles vão significar algo para elas. Muitos vêm conversar comigo e dizem "nossa, tem um monte de autor ali que eu nunca ouvi falar". Que bom, porque eu tenho realmente tentado fazer leituras as mais diversas possíveis, de lugares os mais diversos possíveis, para mostrar como é rica a nossa tradição literária ocidental. E isso acabou fazendo com que eu, que já era viciado em livros, esteja cada vez mais viciado ainda.

Qual a importâncias dos clássicos para quem escreve?
É uma bobagem, uma estupidez imensa, alguém achar que pode começar a escrever do nada, assim como tem gente que escreve e diz que não gosta de ler. Então de alguma maneira o blog está ali para mostrar que nós temos uma tradição ocidental na qual você se insere, e de alguma maneira você tem de conhecê-la. É extremamente importante que você saiba que pertence a uma tradição. Eu sou um leitor voraz. Inclusive como eu estou muito afastado desses meios dispersantes, como Whatsapp, Facebook, essas coisas todas, acabo tendo bastante controle desse tempo pra ler.

 
 

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